Vítor Vicente

A ideia de festejar o aniversário a 14 de Fevereiro apresenta-se um problema tão insolúvel quanto a própria vida. Em 2016, à falta de parceira, decidi auto-presentear-me com um jogo da Premier League e a companhia duma amiguinha londrina.
Inábil para adquirir o bilhete através da Internet, agarrei no telemóvel (na verdade, agarrar é um verbo que apenas se aplica ao, agora remoto, tempo dos telefones – na idade moderna, o telemóvel tornou-se um objeto sempre à mão, tornando-se quase parte da mesma) e liguei para o Estádio Etihad. Sempre me achei mais capaz em chamadas do que em chats, remetendo-me aos longos e penosos anos passados a trabalhar em call centers. Sem surpresa, obtive o bilhete no momento e a confirmação por e-mail ao fim duns minutos. Para meu espanto, dias antes de voar para Manchester, recebi o bilhete, embrulhadinho num envelope, na caixa do correio (o que, para quem vivia numa casa Georgiana de Dublin, equivale a encontrá-lo debaixo da porta de entrada).
Chegado a Manchester, tudo parecia correr às mil e uma maravilhas. A amiguinha passou comigo o aniversário, despedindo-se antes do início da partida, fazendo jus às antigas regras: mulher liberta o macho ao domingo à tarde, quando é a hora da bola.
Entrei no estádio Etihad com a soberba de quem acaba de assinar um contrato chorudo e se crê candidato a ganhar a Bola de Ouro, na Suíça e no ano seguinte. Era cedo – eu costumo chegar cedo, caso não me atrase – e a bancada estava praticamente vazia. Para a foto e contra o frio, despi o casaco e enchi o peito, pedindo a um casal de adeptos do City que registasse o momento. A custo, lá tiraram uma foto àquele adepto trajado com a camisola dos Spurs, indivíduo que, descontente com o resultado, ainda teve o desplante de pedir um retake.
Estava eu prestes a postar a glória nas redes sociais, quando apareceu um segurança e que me pediu que o seguisse, em direcção à porta de saída do recinto. Perguntei porquê.
O tipo foi sucinto:
– You don’t wanna end up in the hospital.
Agradecendo-lhe o gesto e pedindo uma solução, segui-o.
– You can’t stay among City supporters. There will be problems and we won’t be able to stop them on time.
– I thank you for that. But please help me getting a ticket next to Spurs crowd. I wasn’t told on the phone about this.
Estamos agora nos anéis de acesso às diferentes bancadas e o segurança está a ligar para alguém, explicando a situação. Parece interessado em encontrar uma solução. A expressão frustrada com que desliga a chamada não deixa lugar para dúvidas.
– Come with me. You need to leave the stadium.
– Can I change my ticket and seat next to Spurs supporters? Or at least get a refund please?
– We can check it out at the exit.
A caminho da saída, cruzo-me com vários fãs do City e que me apontam o dedo e, repetidamente em coro, gritam: “Shame, shame, shame”.
Sou entregue a outros seguranças. Explico a minha situação, o sucedido, a minha inocência, pedindo encarecidamente uma solução.
– In order to help you, we need to register your data. What’s your address?
– Dublin 6.
– Dublin?
– Yes, Dublin. I came to Manchester for the match.
O segurança está chocado.
– Right, what’s your date of birth?
– Fourteen of Feb, nineteen eighty three.
– I did not mean today’s day.
– I know. But I was born on…
– Oh…
– Yup, I came to celebrate my birthday watching the match and it is not happening.
O segurança está mais que consternado, está comovido.
Insisto:
– Can I change my ticket to seat next to Spurs supporters? Or at least can I get a refund? I wasn’t told about this on the phone.
– Well, you can send a post, telling us about the misunderstanding and ask for a refund.
– Ok, I know how it works. Thank you for looking after me.
Os seguranças entreolham-se.
Registado o caso, um dos seguranças pede-me que o acompanhe, a caminho da bilheteira dos visitantes. Apesar do jogo já ter começado, ainda chegam autocarros de norte de Londres e somos obrigados a fazer fila à espera da minha vez, enquanto ouço as incidências do jogo e me sinto tremendamente triste e impotente, às portas da Premier League.
– Leave it with me – diz o segurança, aproximando-se da bilheteira.
Atrás dele, ouço-o explicar a minha situação. Não me conseguindo conter, adiciono:
– I can pay the difference, if needed.
O segurança afasta-se e a rapariga da bilheteira diz-me:
– No need. Just give me your ticket.
Dou o meu bilhete e recebo outro de volta, retribuindo o gesto com um sorriso de orelha a orelha e um “thank you so much” do tamanho do mundo.
Uma vez na bancada, não só grito os dois golos com que levamos de vencida a partida, como em cada lance que me parece polémico, comportando-me como um hooligan durante o jogo, contrastando com os modos cooperativos que pautaram a minha interação com as autoridades. Creio que este contraste espelha a minha atitude para com o futebol: violento durante noventa minutos e civilizado nos momentos que precedem e se seguem ao apito final.


Nasceu na grande Lisboa mas vive fora há mais de doze anos, entre Espanha, Irlanda, Polónia e Hungria. Publicou oito livros e este ano dará à estampa a sua primeira novela, “A Alfândega”. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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