Vítor Manuel

Cheguei ao Leça no final de 1997, à 7.ª jornada. Cheguei a uma quarta-feira e jogávamos nesse domingo com o Campomaiorense em casa. O Leça estava em lugar de descida, acho que em último. Nessa quarta-feira treinámos e vi que o clube tinha alguns bons jogadores, casos do Constantino, do Pedro Estrela, do Cristóvão, do Serifo, do Tozé, campeão do Mundo em Riade, enfim, eram vários, mas nesse treino olhei logo para o Ricardo Carvalho. Pareceu-me um miúdo muito interessante, com qualidade, e no final do treino perguntei ao adjunto, neste caso o Pinto, quem era. E ele contou-me a história dele, disse-me que tinha chegado dos juniores do FC Porto, que estava emprestado. Depois perguntei-lhe qual era o histórico dele naquela época e o Pinto disse-me que nunca tinha sido convocado. Pensei “deixa cá ver o que isto vai dar”, mas senti que havia ali algo de especial, que ele tinha muito para dar.
Quinta-feira treinámos e o miúdo outra vez a evidenciar-se, sexta também, mas não quis mexer na equipa. Era um jogo de grande responsabilidade, o meu primeiro jogo, o miúdo nunca tinha jogado e projectei logo a entrada dele para o domingo a seguir porque tínhamos um jogo para a Taça de Portugal com o Fanhões, da II Divisão B.
Fiz a convocatória para o jogo com o Campomaiorense sem o Ricardo. Ganhámos 1-0. Foi importante começar aí a reviravolta, o chip mudou e na terça-feira seguinte chamei o miúdo no final do treino. Tivemos uma conversa no balneário, pedi-lhe para me contar a vida dele.
– Ó mister, fui júnior do FC Porto, vim para aqui com expectativas mas nunca fui convocado, nunca joguei.
– Tudo bem, mas agora é outra vida. Hoje estou aqui eu.
Fui substituir o Rodolfo Reis, por quem tenho uma grande amizade, mas cada um tem as suas opções e são respeitáveis. E depois tivemos uma conversa para o pôr à vontade, perguntei-lhe se tinha namorada, de onde era, essas coisas. Vi que era um miúdo introvertido fora de campo, mas lá dentro com uma personalidade fortíssima.
– Já olhei para ti e vejo que tens grandes qualidades e capacidades. Não te convoquei porque era o meu primeiro jogo, não queria mexer muito na equipa, e também para te preservar, nunca tinhas jogado. Mas sinto que tens potencial para seres titular. Prepara-te bem durante o resto da semana porque em princípio vais jogar contra o Fanhões. E não tenhas medo, eu assumo a responsabilidade se tu jogares.
Resumindo: o miúdo jogou, ganhámos 6-0 e o Ricardo chegou, agarrou o lugar dele e começa ali a sua história. Depois passou ainda pelo Alverca e pelo Vitória de Setúbal, mas houve alguém que lhe abriu a porta, que olhou para ele e sentiu que estava ali potencial para um grande jogador. Aconteceu-me o mesmo com muitos outros jogadores, como o Dimas, que era ponta-de-lança quando subiu a sénior da Académica e adaptei-o a lateral esquerdo num jogo em Elvas, tinha ele 18 anos.
Felizmente as coisas correram bem, mérito do Ricardo, mas se aquele ano não é bom, se ele não entra a jogar, podia perder-se um grande jogador. Sem jogar no Leça, se calhar no ano a seguir era emprestado a uma equipa da II Divisão, podia desmotivar e perder o interesse. Juntou-se ali o útil ao agradável: a minha intuição, chamemos-lhe assim, perante um miúdo de 18 anos que tinha um talento enorme e veio a verificar-se que foi um dos melhores centrais do Mundo e, aos 38 anos, ainda é um grande jogador. É uma história que parece pequenina mas que acabou por ser grande na vida do Ricardo.


É um dos treinadores com mais jogos na I Divisão (507) e um nome incontornável da Académica, onde fez toda a carreira de jogador. Actualmente é comentador de A Bola TV.

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