Tiago Góes Ferreira

Partimos numa segunda-feira, finais de Maio, com uma auto-caravana repleta de mantimentos, equipamentos, ideias, esperança e entusiasmo, muito entusiasmo. Os três (repórter, produtor e repórter de imagem) partilhávamos a mesma paixão e devoção pelo desporto rei. Em jeito de brincadeira, na viagem, para atenuar os quilómetros infindáveis, discutíamos as melhores tácticas e onzes para a nossa Selecção. E terminávamos sempre da mesma forma: “embarcámos nesta aventura, 60 dias fora de casa, três homens numa auto-caravana, no mínimo temos de chegar à final!” Uma hipérbole claramente, que apenas servia para nos acalentar o espírito e a mente perante a epopeia que nos aguardava.
Começou o Europeu! Como era de esperar, entre preparação, contactos, viagens, gravações, directos e edições, trabalhávamos horas a fio e dormíamos nas poucas horas vagas que sobravam e nos locais mais recônditos do universo gaulês. Até porque os horários dos parques de campismo não foram feitos para quem está a cobrir um Europeu de futebol. Todavia, tínhamos sempre um lugar garantido à porta, literalmente à porta do parque. Perante o profundo cansaço e desgaste, a nossa fonte de energia e adrenalina era simplesmente o futebol. Ou seja, a esperança de no final do trabalho, depois do último directo ou envio, conseguir entrar no estádio, ouvir o HINO e ver a nossa Selecção jogar!
Primeiro jogo. Ainda estávamos “verdinhos”, demorámos mais do que devíamos na edição e só chegámos na segunda parte. E com a nossa Selecção a jogar daquela forma (e, acreditem, ao vivo ainda custou mais), sabíamos que só teríamos mais duas hipóteses.
Segundo jogo. Ficámos sem energia na auto-caravana. Fomos em busca de electricidade nos restaurantes e cafés mais próximos para enviarmos as peças. Mas depois de uma corrida vertiginosa (nem sei onde fomos buscar forças para correr, o futebol tem destas coisas), conseguimos chegar mesmo no início do jogo. Mas, mais uma vez, perdemos o HINO!
Terceiro jogo. Ficámos sem Internet (parecia de propósito. Os deuses do futebol não estavam mesmo connosco). Toca a comprar um modem, numa loja onde curiosamente trabalhava um luso-descendente, que, como qualquer tuga, lá nos desenrascou! Regressámos ao estádio, subimos ou melhor trepámos as escadas, ouvimos golo! O jogo já tinha começado, pior, a nossa Selecção já estava a perder! Por milagre, Portugal passou e surgiu uma quarta e provável última oportunidade.
Quarto jogo. Não conseguimos arranjar bilhetes, mesmo com as nossas credenciais para a imprensa. Eram os oitavos-de-final. Pedido tinha de ser feito com mais antecedência. Ouvimos o HINO sim, mas num bar próximo do estádio.
Quinto jogo: foi a nossa maior viagem. Quase mil quilómetros para chegar a Marselha. Era impossível não atrasar! Estacionámos num restaurante português, Chez Paulo, que nos recebeu de uma forma que ainda hoje me surpreende e comove. Deu-nos tudo: electricidade, estacionamento, Internet, comida e um golo do Renatinho. Ouvimos o HINO com o Paulo. Emocionámo-nos. E na segunda parte fomos para o estádio. Calhou bem porque, afinal de contas, ainda nos esperavam duas horitas de futebol. Grande Quaresma!
Sexto jogo: dia estava a correr na perfeição. Terminámos mais cedo. Era hoje que íamos ouvir o HINO. Chamada de última hora, a reportagem não chegou em condições. Novo envio. Chegámos antes da partida começar, mas já tinha tocado o HINO. Lembro-me perfeitamente das minhas palavras: “Bom, lá terá de ser na final. Ganhamos hoje, perdemos na final, mas ao menos vamos ouvir o hino.”
Sétimo jogo. Missão impossível: arranjar bilhetes para a final. Depois de uma fila infernal, percebemos que afinal a nossa credencial não era suficiente para entrar nas imediações do estádio, muito menos para ver o jogo. Era necessário um autocolante especial para a credencial e ainda bilhetes para a imprensa. Confesso que nesse momento perdi de imediato a esperança. Sessenta dias depois, o cansaço era de tal ordem que só pensávamos mesmo no regresso e se Portugal perdesse, tanto melhor, já não tínhamos de gravar a festa! Mas ainda nessa manhã, uma epifania desconcertou o meu pensamento. Ora bolas, era a final do Euro, com a nossa Selecção, no meio de um trabalho de sonho e eu ia desistir sem dar luta! Lá começou uma verdadeira bateria de chamadas e mais chamadas e choro e gargalhadas, até que conseguimos dois bilhetes. Contudo, éramos três. Vamos os três ou ninguém vai. Terminámos o trabalho e ainda faltavam algumas horas para o jogo. Inesperadamente, o telemóvel toca. Fico sem bateria. Fui a correr para o restaurante português em Saint-Denis, Cinco Quinas. Aqueles cinco minutos até o telemóvel voltar a ligar pareciam intermináveis. Ligou, do outro lado, o terceiro bilhete. No entanto não era para a bancada, mas sim para o estúdio do estádio. Aceitei.
Ao almoço fizemos um sorteio. O Pedro ficou com o pior bilhete. Eu e o Ricardo fomos para a bancada. Arrancámos para o estádio, com tempo. Chegámos e eis que surge o primeiro presságio. Desistência de última hora, sobrou um bilhete e fomos os três, sim os três, para a bancada. Segundo presságio. Começa o HINO. Pela primeira vez, sessenta dias depois de termos abraçado aquela prodigiosa aventura, estávamos finalmente a ouvir o nosso hino. Terceiro presságio. Entra o Eder! E o resto… vai ficar para sempre na nossa história, porque contra os canhões marchar, marchar!


Tornou-se conhecido dos portugueses pela irreverência das reportagens que fez em programas da RTP como Portugal no Coração, Verão Total, Há Tarde ou o acompanhamento do Euro 2016.

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