Shéu

Quando tinha 18 anos fui convocado pela primeira vez para acompanhar a equipa principal do Benfica. Partíamos numa segunda-feira e nesse mesmo dia tinha a inspecção militar. Perante uma situação destas, o que é que uma pessoa faz? Tinha a inspecção militar, que era uma coisa importante, e estava convocado, que era ainda mais importante. Eu próprio decidi faltar à inspecção militar e fui com a equipa. Nessa altura era uma equipa com Eusébio, Simões, toda aquela gente que conhecemos de alto gabarito.
Fomos a Espanha fazer um torneio, a Salamanca, que ganhámos, e julgo que foi na fase final da época. Como era norma naquela altura, não regressávamos naquele dia, só no seguinte. Então os jogadores decidiram que iam sair. Pediram autorização ao treinador, mas este disse que não. Acabámos por nos reunir já fora do hotel para ir embora. E eu, que tinha sido pela primeira vez convocado, e logo para uma equipa daquelas, não sabia o que fazer. Estava numa encruzilhada! Decidi, lentamente, ir ter com os jogadores que estavam à frente do hotel. Fui a passo, pé ante pé, e do meio do grupo oiço uma voz: “Ó miúdo, vai-te deitar!” E quem era essa pessoa? O Eusébio. Libertando-me assim daquela situação difícil, para quem chegava de novo. Senti-me protegido. Gesto que me marca até hoje, fazendo parte das qualidades humanas do Eusébio. Estou-lhe muito grato por isso.


Chegou ao Benfica em 1970, vindo de Moçambique, e até 1988/89 fez 487 jogos e venceu 17 títulos na Luz. Passados 45 anos mantém a ligação ao clube, agora como secretário-técnico.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

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