Sérgio Sousa

Não gosto de futebol, enquanto desporto. Bem, gosto mas tento convencer-me que só não joguei, só não joguei mais, porque não gostava. Na verdade, tenho pés de chumbo e mãos de manteiga.
Praticar um desporto de equipa quando não se tem jeito é uma chatice, para nós e para os outros. O nosso melhor amigo passa a ser o banco enquanto o resto da equipa nos fala da importância para o sucesso de ter alguém a olhar pelas mochilas enquanto se concentram em ganhar.
Com tempo livre, dediquei-me a apreciar o futebol enquanto espetáculo. O que os jogadores, publico, treinador dizem, fazem antes durante e depois da parte desportiva. E o futebol é o espetáculo-rei.
Se gostamos de futebol, ver o jogo, mesmo jogar não chega para nos ocupar. O futebol é muito mais que aqueles 90 minutos. Não saber isso é como limitar o amor ao sexo. É que por muita activos que sejam isso só vos vai ocupar uma pequena fracção da relação. E os minutos, dias, semanas em que a bola está parada? Falamos sobre o assunto. No intervalo, comemos qualquer coisa, garantimos que na segunda parte vamos dar a volta. No fim dizemos que correu bem mas que no Domingo vai ser melhor. Ou que não correu bem porque o terreno de jogo não ajudava. Isso e aquele pessoal que gritava ao longe “Vamos para cima deles!”, “Olha uma aberta” e “Pára de bombear bolas”.
Estávamos a falar de quê? Ah, sim, futebol.
O futebol é um espetáculo em que muitas vezes o interesse está fora do terreno de jogo, fora do estádio, fora da hora do jogo. É disso que gosto. Isso e de gente que não se leva demasiado a sério, demasiado tempo. Como uma senhora que me lembro de ver nas bancadas quase vazias de um jogo de Distrital. O jogo estava a ser um bocejo salvo pelos insultos que dirigia ao árbitro, que tinham tanto de imerecidos como de imaginativos, o que é uma relação habitual. A meio da segunda parte, enquanto se ouvia o sino da igreja próxima, a senhora, vestida de negro, 60-70 anos, berra “Meu ganda FdP, só não te vou às trombas no fim porque tenho que ir ao Terço”. E saiu… com um sorriso, partilhado por todos, árbitro incluído.


Animador na Rádio Nova, é colaborador frequente dos canais da RTP, tendo ficado na memória dos amantes do futebol com as suas reportagens na extraordinária “Liga dos Últimos”.

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