Seninho

Fiz quatro meses de recruta em Paramos, em Espinho. Fui para enfermagem e fui tirar a especialidade a Coimbra. Quando lá estava pedi autorização ao Mário Campos e ao Vítor Campos, dois jogadores que foram ex-líbris da Académica, isto em 1970, para ir lá treinar. E disseram-me que tudo bem. Fui treinar e veio o Juca, o treinador, e perguntou-me:
– Ó miúdo, onde é que tu jogas?
– Jogo no FC Porto.
– E o que é que estás aqui a fazer?
– Estou a tirar a especialidade em enfermagem aqui em Coimbra.
Quando vim passar um fim-de-semana ao Porto pedi ao clube para ir para a Académica mas não me autorizaram. Acabei por ficar no FC Porto. Eles nessa altura foram a Angola, a minha terra, e não me levaram. Não me convocaram. Entretanto fui para o Porto estagiar no Hospital Militar. Como já estava de volta à cidade tinha a possibilidade de treinar no FC Porto. Dez dias depois de terem ido a Angola foram ao Brasil. E o treinador da altura disse: “Rapazes, de manhã vejam quem é que está convocado para ir ao Brasil.” Qual é o meu espanto no dia seguinte quando vejo que estou convocado! E fiquei revoltado. Foram à minha terra e não me levaram e agora levam-me ao Brasil? Mas qual é a razão para isto? E fui pedir uma justificação. Disse-me o treinador da altura:
– Estavas numa circunstância em que não podias ausentar-te do país.
E respondi-lhe:
– Olhe, eu estou nas mesmas circunstâncias. Na recruta, na especialidade e no estágio, um indivíduo não se pode ausentar do país. Isto se não houver um pedido da entidade à qual estou ligado. Só com essa autorização.
Acabei por ir. E o que é que acontece? Quando chego ao Brasil, a primeira equipa contra a qual jogámos, o Sport Recife, ficou interessada nos meus serviços. Tinha eu 20 anos. Menos de um ano antes, o FC Porto adquiriu-me por 100 contos. Passados seis ou sete meses, pediram 2400 contos ao Sport Recife. Muito dinheiro! E não chegaram a acordo. Vim-me embora.
Dois dias depois de ter chegado ao Porto, ainda tinha o passaporte que me deram para ir ao Brasil, estava dentro desses 15 dias, recebo um telefonema às oito da manhã no Lar do Jogador. E chamaram-me: “Ó Seninho, é para ti. É da tropa. Estás mobilizado para a guerra!” Epá, nem imaginas como me senti. Passados 10 ou 15 minutos fui para o quartel. Cheguei lá e não era para a Guiné, era para Angola. Não me deixaram ir para o Brasil, pediram 2400 contos. Sou mobilizado, nada fazem para que ficasse e acabei por estar quatro anos na tropa. Por que é que não me deixaram ir embora? E fui para o Ultramar.
Acabei por não ter contacto com o inimigo mas todos os dias havia ansiedade e medo, estive mesmo no mato. Seis ou sete meses depois, o FC Moxico pediu ao comandante para eu ir para lá jogar. E assim foi. Fomos campeões e foi extraordinário. Aquela gente, todos os domingos a assistir à nossa fantasia, com os olhos a brilhar de satisfação e paixão por aquilo que estávamos a fazer, foi inesquecível. A equipa era muito boa e acabámos por ganhar o campeonato de 1973. Toda essa equipa acabou por dar uma alegria àquela gente que estava no meio da guerra e, infelizmente, não tinha mais nada. Foi uma coisa que me marcou bastante.


Após a passagem pelo FC Moxico, regressou ao FC Porto e foi o português com mais sucesso a jogar nos EUA, onde foi quatro vezes campeão pelo Cosmos (3) e pelo Chicago Sting (1).

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3 comentários sobre “Seninho

  1. Eu estava colocado nesse quartel de Paramos que era o GACA3 e nessa recruta estiveram juntos o Seninho, Chico Gordo e o Varela.
    O nosso quartel quando jogava ganhava porque para além destas vedetas ainda existiam outras.
    BONS TEMPOS !!!

  2. Eu fui um desses que vi o Seninho a fazer maravilhas e o Chico gordo é o Fafe e varela etc.. Era miúdo com 12 anos e vivia no luso moxico nessa altura. Grande equipa. Bons tempos. Obg Seninho

  3. O amigo Séninho. Que a cada ano que passa (e Encontro da nossa Companhia) tento contactar no sentido de o “motivar e convencer” a aparecer. Mas é muito difícil esse contacto e a vontade de rever os antigos companheiros vai-se esfumando com o passar dos anos… Um abraço do Feio.

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