Salvador Martinha

Quando tinha exactamente 18 anos, portanto há 50 anos, fui fazer testes de captações à A.D.O. – Associação Desportiva de Oeiras – e nesse ano fui o único jogador de fora a entrar. Pumba. O Messi da Quinta das Palmeiras. Ou seja, nessa época era o plantel da época passada e eu. Quando entrei perguntaram-me se eu já tinha jogado em alguma equipa antes. Pensei que de facto já tinha entrado no União de Rio Maior, porque na altura morava em Rio Maior e estava por lá, mas achei que ninguém ia saber, que estúpido, e para facilitar o processo, achava eu, disse que nunca tinha jogado como federado em lado nenhum.
Recordo que estávamos na era da MIRC, altura em que a informação circulava com a mesma velocidade do que um burro a caminho de Serpa. Pensei que as pessoas do campo e da cidade não falavam entre si – uma pequena tanga que mandei ao clube. A época prosseguiu muito bem e quando faltavam apenas seis jogos para acabar a época, estávamos nós no primeiro lugar, fui chamado durante o treino para falar com o meu treinador, Pedro Moreira, que neste momento é o adjunto do Paulo Fonseca do Braga, que me perguntou outra vez, e num tom mais grave, se eu afinal já tinha jogado nalguma equipa antes. Lá contei a história, disse que sim, que já tinha jogado no Rio Maior mas não sabia se tinha ficado federado.
E de facto não sabia, porque eu só fiz a pré-época no União de Rio Maior porque às tantas percebi que tinha de ir de autocarro para os treinos como as pessoas normais. E não era ser vedeta, mas quando és obrigado a ir para os treinos sem motorista privado é altura de dizer basta. A verdade é que no Oeiras recebemos uma carta da federação a dizer que a equipa podia perder todos os pontos dos jogos em que eu joguei. Na altura fiquei da cor de uma maçã ranheta. Eu podia ser linchado pela minha equipa. Não só ia ser responsável pela desclassificação da minha equipa como ia ficar amarrado a um poste para sempre até deixar de ser parvo. Passei duas semanas em pânico e a ir para o treino sem levar a bicicleta, sem levar ténis da Nike, etc.. Enfim, tudo coisas que os meus colegas podiam apreciar levar para casa. Eis que surge a decisão final: fui suspenso apenas três jogos e a equipa não perdeu pontos. Livrei-me de um grande susto e aprendi uma grande lição: assinar por dois clubes é o mesmo do que ter duas namoradas – mais tarde ou mais cedo vamos ser apanhados. Ah, e sim, fomos campeões nesse ano! Campeões distritais de Lisboa.


Um dos talentos confirmados do humor nacional, já passou pela TV, mas é em palco que parece sentir-se realizado. Nas manhãs de 2.ª a 6.ª pode ainda ser encontrado na RFM, em Pensa Rápido.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

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