Sá Pinto

Tive várias lesões graves no joelho, fui operado cinco vezes, e na segunda vez tinha ali uma situação difícil de resolver porque o problema surgiu antes do Mundial da Coreia, em 2002.
Estávamos no final de 2001 e lesionei-me gravemente, uma rotura do cruzado anterior. Senti que não tinha o joelho suficientemente forte e estável para jogar ao nível a que teria de jogar, tentei fazer a recuperação fora com alguns especialistas, porque se fosse operado seriam seis meses de recuperação e perdia o Mundial. Ia chegar mesmo no limite, perto de Junho, e sem ritmo de jogo dificilmente iria. Precisava de competir uns dois meses e tinha de estar bem ali em Março ou Abril para poder ser opção. Como a operação estava fora de hipótese, fui visto por um especialista que ia aconselhar-me e com o qual faria um tratamento conservador através de fisioterapia diária, com exercícios que fortalecessem os músculos do quadricípede e dos isquiotibiais, que me desse segurança ao joelho para evitar a operação.
Na altura falei com o seleccionador António Oliveira e disse-me que se estivesse nas minhas faculdades normais seria opção. Tinha ali um aspecto forte de motivação para a minha recuperação e para não ser operado. Fui visitar um expert, que foi o primeiro a utilizar a técnica de cirurgia por artroscopia em França, um professor catedrático que operava todos os jogadores com problemas nos meniscos e do ligamento cruzado anterior.
Depois de observar os exames que levei, ele olhou para aquilo e perguntou-me se queria jogar futebol durante muito mais tempo. Respondi-lhe: “Sim, vim cá para isso.” Na altura tinha 28 anos. Ele pergunta-me: “E o golfe?” E eu: “Golfe?” Ele insistiu: “Sim, não gosta de jogar golfe?” Fui surpreendido com aquilo. “Ora bem, nunca pensei nisso.” Ao que ele respondeu: “Mas acho que era importante você começar a pensar nisso. Temos aqui uma situação em que vai ser difícil recuperar. Podemos tentar, mas você já tem aqui muitas mazelas nos joelhos.” Tinha problemas nas cartilagens, já tinha sido operado ao menisco e retiraram parte dele, o cruzado anterior estava parcialmente roto, o cenário não era o melhor. “Podemos tentar. Limpamos um bocadinho o menisco e, depois vemos como reage o joelho à recuperação nas próximas semanas. Tem de fazer um grande fortalecimento muscular e um bom trabalho proprioceptivo para saber se vai ser possível jogar sem operar o ligamento.”
Fui lá a pensar que ele ia dar-me esperanças para jogar mais não sei quantos anos e perguntou-me se gostava de jogar golfe… Fiquei de rastos. Não é fácil, para quem quer ir a um Mundial, ouvir isto. Disse-me que ia ser difícil continuar a jogar ao nível a que estava habituado mas que, com inteligência, podia continuar a jogar se me cuidasse muito.
Falei com os meus médicos no Sporting, que me acompanharam em todo o momento e, era uma situação na qual eles me podiam ajudar, eram competentes, mas eu quis ouvir outras opiniões, queria o melhor para mim. Tive sempre um enorme apoio da parte do clube e o responsável médico foi comigo a todo o lado e disponibilizaram-se totalmente para isso. Falei também com o médico da Selecção francesa, que tinha uma clínica espectacular em Lyon à qual iam os jogadores de todos os clubes de topo, para fazer lá a recuperação.
Fui para lá, fui operado por este cirurgião muito conceituado, ele efectivamente retirou-me parte do menisco externo, fez o que poderia fazer naquele momento, depois estive ali seis semanas a fazer fisioterapia. Fazia cinco/seis horas diárias, às vezes sete ou oito. Levantava-me de manhã, fazia três ou quatro horas, depois ia almoçar e voltava outra vez à tarde. Era um trabalho diferente, mais estático no ginásio, de fortalecimento do músculo. Depois ia para o campo fazer o transfer e o complemento do trabalho efectuado no ginásio, onde fazia travagens, arranques, acelerações, rotações, mudanças de direcção… Durante seis semanas fiz o máximo que pude. Estive sozinho nessa clínica em Lyon. Hoje falo relativamente bem francês mas na altura tive de aprender para me expressar, os tipos falavam mal inglês, e foi difícil porque ainda por cima a minha mulher estava grávida. A minha segunda filha ia nascer e na minha quinta semana da estadia em Lyon vim a Portugal vê-la nascer e voltei outra vez. Aconteceram ali uma data de coisas curiosas durante essas semanas. Fui ouvir a opinião em Janeiro e, se conseguisse recuperar, voltava a jogar em Março/Abril e podia ir ao Mundial. Essa era a minha aposta. Durante essas seis semanas fiz tudo e mais alguma coisa: tentei, tentei, tentei e não consegui. O joelho não ganhou a estabilidade suficiente e, infelizmente, depois daquele esforço, percebi que teria de ser novamente operado ao cruzado anterior.
Fui operado em Março, em Madrid, pelo doutor Del Corral, que era o responsável médico do Real Madrid e fiz lá a recuperação, na altura em que estava lá o Figo. Para não voltar a mexer na estrutura do joelho fizeram-me um enxerto de um ligamento de um cadáver de um jovem alemão. “Caramba, como os alemães são duros agora vou ficar com ligamento para toda a vida!”, na altura até brinquei com a situação. Infelizmente, essa operação não correu bem porque rejeitei, o ligamento não vascularizou, o sangue não irrigou o ligamento, foi-se degradando e, portanto, não solucionei o problema. Entretanto o joelho perdeu estabilidade, isso criou-me novamente uma situação de rotura do ligamento cruzado anterior e nova operação.
Mesmo com o ligamento quase roto, ainda fiz vários jogos no Sporting, fiz golos, assistências e estive ligado a uma série de oito ou nove vitórias consecutivas com o Fernando Santos. Fazia um grande esforço para jogar, fazia muitas horas de fisioterapia, antes e depois dos jogos, para poder ter força para aguentar as travagens, as rotações e os arranques.
Para a terceira operação fui a um especialista suíço, o doutor Hans-Ulrich Stäubli, que operava os casos mais raros e difíceis da Selecção de ski da Suíça. Era a terceira cirurgia ao joelho, tinha 30 ou 31 anos, e havia alguma desconfiança em relação ao meu futuro. Na altura estava praticamente acabado para o futebol, o histórico não era nada favorável. Tive uma reunião com ele, disse-me qual era a técnica que ia fazer, que era tirar parte do ligamento quadricipital e fazer um ligamento cruzado anterior. Já tinha tirado do rotuliano, já tinha tido um cadáver, enfim… Podia ter ido aos extensores, que é a única parte que tenho para fazer uma última vez, de resto já não se pode tirar de mais lado nenhum. Até à data! Lembro-me que depois de sairmos, eu e o médico do Sporting que me acompanhou na altura, da reunião com o doutor Stäubli, o meu médico disse-me que ele tirou “um coelho da cartola” perante a solução que me deu para a minha operação.
Fui operado em Berna, na Suíça, e resolvi momentaneamente a situação. Recuperei em não sei quantos meses, fiz a recuperação fora com o António Gaspar, na Fisiogaspar, com a supervisão deste senhor suíço, pedia-lhe para me avaliar periodicamente, depois regressei ao Sporting com o Peseiro em meados de Dezembro/Janeiro. Fui a contratação de Inverno e acabámos por fazer aquela época fantástica (final da Taça UEFA, etc.) em que estivemos para ganhar quase tudo e, infelizmente, acabámos por não ganhar o que merecíamos ter ganho. Ainda joguei mais dois ou três anos a um grande nível e saí pelo meu próprio pé. Claro que já não fui como era anteriormente, de maneira nenhuma. Até aos 27/28 anos era uma bomba em todos os aspectos. A partir dali consegui ter rendimento, estar ao mais alto nível, mas nunca mais fui igual. Por isso é que perdi uns bons anos de Selecção. Consegui estar ao mais alto nível porque fui inteligente, mudei a minha forma de jogar, percebi qual era o espaço onde podia desequilibrar e a melhor forma para ajudar a equipa, mas senti que apesar do coração, a alma e a garra estarem lá, em termos de explosão, de velocidade e de mudanças de direcção já não era igual.
É uma história difícil, de vontade, sacrifício, de alguém que tem uma paixão enorme pelo jogo e que não desistiu enquanto não conseguisse voltar a jogar e a ser feliz. De alguém que desfrutou do jogo como ninguém, precisamente pela paixão que tinha.


Estreou-se na I Divisão pelo Salgueiros, mas nove épocas no Sporting tornaram-no uma das maiores glórias do clube. Jogou ainda na Real Sociedad e terminou no Standard Liège. Hoje é treinador.

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2 comentários sobre “Sá Pinto

  1. Grande profissional! Saudades das manhãs passadas nas máquinas de flippers do marquês quando éramos putos! Abraço

  2. Quero deixar aqui um grande abraço ao Sá pelo homem que é e pelo orgulho que tenho em dizer que te acompanho para sempre. Força amigo

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