Rui Reininho

Recordo uma viagem que fiz a Itália a convite da Federação e foi muito engraçada porque fiquei a conhecer aquela gente toda ligada ao mundo da bola. Foi um Itália-Portugal, de qualificação para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos, em que perdemos 1-0 no San Siro. Estava nos tops em 92, com o Rock in Rio Douro, era uma pessoa importante nas comitivas, e foi muito divertido. Conheci o Jorge Jesus, que na altura usava camisas pretas e crucifixos, e achei-lhe muita graça, lembro-me de conhecer o Manuel José, o Torres, o Bom Gigante… São pessoas muito interessantes de conhecer pessoalmente numa viagem e passei tempos muito divertidos com aquela gente.

Chegámos a Milão, estava um bocadinho de frio e fui comprar um sobretudo, até porque estava na capital da moda. Meti-me ali para uma rua secundária, com a minha ratice tripeira, e entrei num alfaiate. Lembro-me que comprei um daqueles sobretudos à italiana, daquela lã fantástica, e quando apareci assim vestido no hotel o pessoal da bola começou logo: “Epá, grande sobretudo!” Fui outra vez à loja e levei muita gente. O dono da loja estava fascinado, vendi-lhe uns seis ou sete sobretudos e disse-me para escolher as camisolas que quisesse para mim. À pala disso ainda trouxe umas quantas camisolas de gola alta. Depois tirámos uma foto, éramos seis ou sete e parecíamos um grupo da máfia assim vestidos, todos de sobretudo de caxemira, com aquela boa lã, bem confeccionado, e houve um presidente de um clube que comprou um chapéu. Saímos dali e parecia um episódio do Padrinho.

O convívio foi fantástico, a única coisa que correu mal foi que aquela derrota complicou muito a nossa qualificação. Tinha uma relação porreira de amizade, realmente era uma jóia de um moço, com o Fernando Couto, que foi expulso nesse jogo e acabou por contribuir para não irmos aos Estados Unidos.

No avião, já no voo de regresso, vinha a conversar com alguns jogadores e pedi ao Rui Costa para mandar um abraço ao Fernando Couto, que ia lá à frente. E ele disse-me: “ele vai a dormir, está deprimido. O homem se calhar sente-se um bocadinho culpado por ter sido expulso.” Ok, compreendi e passado um bocado veio uma hospedeira toda giraça ter comigo. Entrega-me um saco de plástico e lá dentro vinha a camisola que o Fernando Couto usou no jogo. Ainda hoje a tenho, fiz um quadro. Tem o número cinco e a marca de uma bola!

Foi uma aventura porreira durante um jogo da Selecção. Claro que houve outros pormenores. Fomos jantar a um sítio onde os tipos da Fórmula 1 costumavam ir, uma trattoria italiana cheia de fotografias do Ayrton Senna e de outros pilotos, e, claro, acabámos numa magnífica casa de alterne. Nós da comitiva, o pessoal ligado às direcções dos clubes. Não se pode falar de nomes, mas achei muita graça a um presidente de um clube. Mandava vir champanhe para as moças, na altura estavam ali umas moças de Leste a fazer o convívio, tudo muito sério, claro, e a dada altura ele pergunta: “Epá, aquela não era loira?” Isto porque elas usam uma táctica fantástica, quando um tipo se distrai sai uma senhora e entra outra, que pedia mais bebidas. E ele intrigado: “Já te paguei, pá! Ha pagato, ha pagato!” E nós ríamo-nos que nem perdidos.

Foi o meu baptismo com a estrutura paralela à Selecção. Lembro-me também de um tipo de uma imobiliária que vinha comigo no avião e que dava cartões a toda a gente. Estava com medo de aterrar e já ter comprado um condomínio em Vilamoura!

O ambiente era realmente fantástico e tive ali a vantagem de fazer alguns amigos, como o Fernando Couto e o Rui Costa, essa geração sempre foi muito simpática comigo porque coincidíamos por eu ser mais jovem e por estarmos ali nos píncaros dos tops com o disco Rock in Rio Douro. Diziam-me que eram meus fãs e eles próprios queriam tirar fotografias comigo, o que era uma honra. Por exemplo, o Fernando Couto, que toda a gente considerava um leão dentro do campo, cá fora era uma simpatia e até era um moço tímido. Depois tive o prazer de o ter ali no Estádio das Antas, no concerto a seguir a Alvalade, e o Fernando estava na primeira fila com uma camisola a dizer GNR e todo molhado, porque mandavam mangueiradas para arrefecer o pessoal, e ele com o cabelo todo molhado. Ainda foi ao balneário ter connosco para nos dar ali uma força.

Existe toda essa ligação entre o rock e o futebol, que tem gente muito simpática. Os miúdos, como eu agora lhes chamo, são tipos porreiríssimos e às vezes as pessoas não sabem. Exigem-lhes muita coisa e eles são putos de 20 e poucos anos. Até nesta altura das Selecções exigem-lhes muito, como o estarem a representar a Nação. É uma coisa que noto, e é a minha crítica, acho que esta Selecção diverte-se pouco. Há muita rigidez e pouca alegria. Deixem-nos divertirem-se!


Uma das mais carismáticas figuras da cultura nacional, está prestes a completar 35 anos como vocalista do GNR. Caixa Negra, editado em 2015, é o mais recente álbum de originais da banda.

Foto: José Chan

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