Rui Pedro Tendinha

A minha história inclui o Alvim, que era como o Kramer, aquela personagem do Seinfeld, porque houve um período em que éramos vizinhos e entrava pela minha casa a toda a hora. E houve um dia em que de manhã me disse “olha, o Jardel vai lá jantar a tua casa.” Isto foi naquela fase em que ele ainda jogava, mas estava sem clube. Acho que foi antes de ir para o Beira-Mar. Ou foi imediatamente a seguir. Mas era o Jardel! E eu, como benfiquista, para mim o Jardel sempre foi o gajo que me provocou mais cólicas, era a besta negra do Benfica, quer no FC Porto como no Sporting, e de repente acordo e recebo a intimação do Fernando Alvim que dizia “a tua casa é maior que a minha, está sempre limpinha, eu e o Jardel precisamos de jantar e estou aí com uma ideia de fazermos um filme sobre ele”. E foi assim que dei com este cenário surreal de ter ali o meu maior arqui-inimigo, o homem que uma vez estragou um Natal com dois golos na Luz que deram um empate ao Sporting, que se fartou de marcar pelo FC Porto, e de repente estava ali. Foi surreal!

Lembro-me de que isto foi em Janeiro, naquela altura o Benfica não tinha assim um avançado espectacular. Quer dizer, já tínhamos o Cardozo, mas as coisas não estavam a correr lá muito bem e o mercado estava aberto. Então ainda cheguei a pensar “epá, e se o gajo ainda viesse para o Benfica?”, e lancei este tema para a discussão, ao que o Jardel respondeu logo: “Oba, eu vou! Eu quero ir, eu quero ir!”. Mais surreal ainda: tinha tudo organizado, um empregado para preparar o repasto para o senhor, e o mais engraçado é que o Jardel sentou-se e começou logo a comer! Estava cheio de fome, aqui não há pão para malucos, queria era comer! Falámos sobre futebol, ele a contar histórias, e fiquei com a ideia de que, se não fossem os quilos a mais e a má vida do homem, ainda podia ser útil ao Benfica. E ele tinha tanta auto-confiança que dizia que se fosse para lá ainda marcava. E marcava, de certeza!

E era um profissional no sentido em que lhe perguntei se era do FC Porto ou do Sporting e ele dizia que não conseguia dizer de qual era, queria era marcar golos. Não tinha saudades de jogar em nenhum deles, só tinha saudades de marcar golos. Tanto que marcou por todo o lado onde passou. Foi no Brasil, no Galatasaray e até no Beira-Mar marcou. Portanto, ao conhecê-lo acabei por ficar com uma imagem de que o Jardel não foi sádico quando se fartou de marcar ao Benfica. Era apenas uma máquina mortífera de fazer golos, bem como uma máquina também a comer sem esperar pelos outros.


Apaixonado pelo cinema, partilha a sua visão no universo SIC, com programas nos canais Caras e Radical. Aceite também a ajuda dele através do livro 100 Filmes Que Podem Mudar a Sua Vida.

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