Rui Miguel

Vivi uma situação no Chipre que foi das melhores que tive na minha carreira. Tenho uma paixão louca pelo Vitória de Guimarães. Eu estava a jogar no Chipre e o Vitória jogava em casa contra o Braga para a Taça de Portugal. O campeonato do Chipre estava parado nesse fim-de-semana, pedi para vir a Portugal e deram-me o OK. Reservei o voo, mas o único que podia reservar para chegar a Portugal a tempo do jogo obrigava-me a faltar ao treino do dia seguinte. Assim foi. Fiz-me de esquecido, faltei ao treino, apanhei o voo para Munique só que chego lá e os voos estavam todos cancelados por causa de uma greve dos pilotos! Perdi o voo de ligação…. Já tinha amigos à minha espera no Porto para depois irmos directos para Guimarães, para vermos o jogo, mas perdi o voo, só vim no dia a seguir para Portugal.
Quando regresso ao Chipre tinha um processo disciplinar! O Jorge Costa era o treinador e as coisas foram faladas e resolvidas. Expliquei-me, disse que tinha havido uma falha de comunicação com o clube, mas a responsabilidade era minha. Foi aquela paixão pelo Vitória! Queria vir ver o jogo e tive o azar de em Munique ter os voos cancelados. Tive de pagar uma multa e ainda tive de pagar um jantar ao plantel todo. Foi o meu castigo.
Tive outra história caricata na Polónia, logo no dia da apresentação. Estavam centenas de pessoas, iam apresentando os jogadores um a um e eu ia ficando para o fim por ser um dos reforços. O speaker ia chamando os jogadores, desde os guarda-redes, iam para o palco, as pessoas gritavam o nome deles e aplaudiam. O normal. Até chegar a minha vez. Estava ali à espera de ser chamado, entretanto o speaker diz o meu nome, Rui Miguel, e há ali um misto de risos, poucos aplausos, uma reacção totalmente diferente. Entro em palco, olho para aquelas pessoas, e penso: “o que é que se passa aqui? Ainda não comecei a jogar e pessoas já não gostam de mim?!”. Reparei que estava toda a gente a gozar. Foi um bocado embaraçoso, fiquei ali sem saber porquê. O speaker também soltou uma gargalhada, os meus colegas também se estavam a rir e ninguém me explicou no momento o porquê daquela reacção. Só no final da apresentação é que fui tentar perceber o que é que se tinha passado. Como é que eu hei-de explicar isto? Rui em Polaco é muito parecido com caralho. Pronuncia-se praticamente da mesma maneira. Mas estava lá há poucas semanas, não sabia. Por causa disso, a minha camisola nem dizia Rui! Na primeira época eles puseram Melo nas costas. No segundo ano já consegui mudar e pedi para ter Rui Miguel na camisola, mas toda a gente me tratava por Miguel lá. Ainda hoje.
Tive outra situação na Rússia logo na minha primeira semana, no segundo ou no terceiro treino. Estávamos no centro de estágios, tudo fechado, como acontece aqui em Portugal nos clubes grandes. Ali à volta dos campos era tudo arvoredo, havia uma floresta ao lado do centro de estágio, e de repente aparecem três homens armados com metralhadoras. Estava a treinar e fiquei apavorado! Comecei a gritar: “Cuidado, vêm aí pessoas armadas!”. Ninguém me estava a perceber e eu apontava para os homens, até que me disseram para ter calma, que eram seguranças do presidente. Sempre que o presidente do clube ia ao centro de estágios, antes de ele entrar ia uma primeira comitiva, um carro com seguranças que fazia uma ronda para ver se havia segurança para ele chegar. Depois ainda chegavam mais dois carros com escolta para o presidente, todos armados. Sempre que ele lá ia ao centro montava-se este clima de segurança apertada. Mas a primeira vez teve assim um impacto…. Não estava preparado, foi um bocadinho diferente da nossa realidade!
Tenho outra história na Moldávia, também caricata. Foi na primeira jornada do campeonato e tínhamos um jogo fora. Era o início de época e havia alguns jogadores à experiência no clube, que nem estavam inscritos e vejo-os também no autocarro para ir para o jogo. Achei aquilo um bocado estranho, mas pronto. Lá fomos todos para o jogo. Chegámos lá ao estádio, já no balneário e perguntei pelos equipamentos. Disseram-me que ainda estavam no autocarro, que o roupeiro já os trazia. Ficámos ali todos sentados à espera. Entretanto vem o roupeiro com dois sacos, abre-os e atira camisolas para um lado, calções e meias para o outro, tudo no chão e, para meu espanto, começo a ver os jogadores atrás dos equipamentos. Tiravam camisolas, punham-se a escolher o tamanho, a ver o número e eu e os outros estrangeiros ali sentados a ver aquilo. Havia lá um rapaz indiano que estava à experiência, nem inscrito estava e não ficou connosco, a pegar no equipamento e eu a pensar: “mas o que é que se passa aqui?”. Entretanto comecei à procura da minha camisola, o meu número era o 10, e nada. Perguntei onde é que estava o número 10 e eles:
– Não há número 10 porque no ano passado o jogador que era o 10 levou o equipamento para casa.
Saí do balneário, chamei as pessoas do clube e disse-lhes o que se estava a passar, que aquilo não podia acontecer, que jogadores que nem estavam inscritos estavam a equipar-se, para lhes explicarem que não iam jogar porque aquilo já era um jogo a sério. Tive de jogar com o número 16 e na semana a seguir lá chegaram equipamentos novos. Foi uma situação bastante caricata, sendo já a primeira jornada do campeonato, mas acabámos por ganhar e aquilo passou.


Médio do Académico de Viseu, teve experiências no estrangeiro ao serviço de Zaglebie Lubin (Polónia), FK Krasnodar (Rússia), Astra Giurgiu e Rapid Bucareste (Roménia) e FC Zimbru (Moldávia). Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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