Rui Miguel Tovar

Tudo começa em Lisboa. Um domingo qualquer, tranquilo nas instalações da RTP com o meu pai. Ou não. O telefone toca bem cedo e perguntam-lhe se dá para ir fazer o Covilhã-Chaves, porque o jornalista marcado para esse trepidante jogo havia faltado por qualquer motivo.
Quando o meu pai me dá o plano, nem pestanejei duas vezes. “Sim, bora aí, mai’nada.” Não só viajaria com o meu pai, por entre bosques e serras nunca antes ultrapassados, como também faltaria às aulas no dia seguinte porque o plano não prevê ida e volta no mesmo dia. Aaaah, bem bom. A aventura automobilística é mesmo isso, uma aventura de ziguezagues entre chuva, granizo, vento e sei lá o que mais. Como vamos atrasadíssimos para o jogo, só paramos para comprar sandes e bolachas. Azar dos azares, senti-me mal a meio da viagem e chamo o juca. Que é como quem diz, “jeroooooonimooooooo!” Em cima dos jeans do meu pai. Na mouche, toma lá, vai buscar. Mais uma paragem nas boxes, esta inesperada, para secar as calças (e, vá, recompôr-me). E a tempestade não passa. Pelo contrário. À medida que subimos, as nuvens tornam-se mais densas, o tempo fecha mais e a agonia (minha) aumenta. Quando chegamos ao José dos Santos Pinto, está 0-0 ao intervalo e só me lembro de ver caras fechadas, a olhar para a equipa da RTP com vontade de a trucidar, com alguns comentários irónicos à mistura: “Isto são horas?”, “isso nunca aconteceria em Lisboa, aí vocês chegam a tempo”, “gatunos”, ou “a vossa sorte é que não houve golos.”
Uyyyyy, o tempo fecha por completo. E piora com o 2-1 do Chaves no final dos 90’. Quando o árbitro apita para o fim, vejo um monte de pessoas a vir na nossa direcção, a refilarem com tudo e mais alguma coisa. Caras nada amigáveis. Lá se vai o encanto da Serra. Ainda hoje me lembro de sermos encostados à parede e de ver o meu pai a colocar-se à minha frente, com a palma da mão esquerda virada para mim como que a proteger-me. Felizmente, nada acontece porque alguém (o presidente do Covilhã? Ou o da Câmara Municipal? Nem ideia) acalma os ânimos com um sonoro e, por sinal, intimidante: “No ‘sô’ Rui ninguém toca. Nós não estamos aqui para criar confusão com ninguém. Vá, tudo para casa. Vá!” Obrigado, seja lá quem tu fores. A caminho de casa ali perto, onde iríamos passar a noite que me possibilitaria falhar as aulas (uh-huuuu), uma notícia na rádio anima-nos ali no meio da Serra: “última hora, a equipa da RTP foi escorraçada do estádio pelos adeptos e o jornalista Rui Tovar agredido.” Jerooonimoooo. Em vez de curtir o Justiceiro ou o MacGyver, em Lisboa, a minha mãe só se acalma com um telefonema a repor a verdade dos factos. Pelo menos, lá em casa.


Começou no jornalismo em 1995, no Record, onde permaneceu até partir em 2009 para o i. Autor de uma extensa lista de livros de futebol, podemos vê-lo hoje no programa A Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio, na RTP.

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2 comentários sobre “Rui Miguel Tovar

  1. Um apaixonado por futebol, um grande escritor e um fabuloso jornalista.
    Continuação de bom sucesso.
    Abraço

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