Rui Dias

Acabara o último treino em Macau e a Seleção Nacional preparava a viagem para Seul, ao fim da tarde desse dia, feliz que deixaria para trás quinze dias de condições climatéricas impróprias – quase 100 por cento de humidade. A FPF permitiu a cada órgão de Comunicação Social entrevistar um jogador e a de Record estava prestes a ser feita. Depois de avanços e recuos, Luís Figo tinha acedido em falar connosco e iria fazê-lo, precisamente, no último instante possível, porque na Coreia do Sul seriam aplicadas as regras habituais de isolamento da equipa à curiosidade exterior.
Luís Figo chegou ao Mundial’2002 na qualidade de melhor jogador do Mundo, era a grande figura de Portugal e vinha de conquistar a Liga dos Campeões pelo Real Madrid. Estava no auge de uma carreira brilhante mas permanecia limitado fisicamente na sequência de um lance com Deco, em jogo com o FC Porto para a competição europeia – o Real chegou mesmo a solicitar a dispensa da grande competição, como se isso fosse razoável.
(A minha relação com Figo nasceu no fim do ano de 1988, num torneio de Israel, no qual guiou Portugal à vitória. Ele era juvenil, eu tinha meia dúzia de anos como jornalista. Mantivemo-nos próximos desde então e a honra de entrevistá-lo nas vésperas do que todos pensávamos ser a consagração dele como jogador e da Geração de Ouro como fenómeno coletivo, era enorme.)
No final do treino instalou-se a dúvida: onde teria lugar a conversa? Figo estava a fazer tratamento, na sala utilizada pelo departamento médico e o tempo escasseava. A decisão pertenceu-lhe: “Falamos aqui mesmo.” O Dr. Henrique Jones não concordou, por uma razão simples: ninguém podia ver o tornozelo direito do capitão. Figo acabou com a conversa: “Doutor não se preocupe, não é um jornalista que vai estar aqui, é um amigo.”
A entrevista fez-se com o tornozelo envolto em gelo, tapado por uma toalha. Figo estava em sofrimento, preocupado pela persistência dos sintomas, resignado ao destino de sofrer para ajudar Portugal. Em determinada altura, levantou a toalha e mostrou a zona em causa. A imagem era tremenda. O inchaço deformava-lhe o pé – fiquei a saber que jogava com bota dois números acima do seu. Portugal saiu prematuramente do Mundial e Figo não confirmou o estatuto com que chegou à Coreia do Sul. A deceção foi geral. Mas nem todos foram apanhados de surpresa.


Jornalista, iniciou a carreira em Janeiro de 1982 no Record, onde esteve até Março de 1989, altura em que foi para A Bola. Em Junho de 2000 regressou ao Record, até hoje. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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