Rui Cruz

Sou do Benfica. Num texto sobre futebol, convém deixar as convicções claras desde o primeiro momento e as minhas são estas: o Benfica é o melhor clube do Mundo, o que tem o equipamento mais bonito, os melhores jogadores, o melhor estádio, os melhores adeptos, o melhor relvado, as melhores bifanas e até a cerveja sem álcool que se vende dentro do estádio nos dias de jogo é melhor que Cardhu. Ou seja, não há nada igual, só parecido. E mesmo assim só o Atlético de Madrid.
Posto isto, há quem me chame “doente” apenas por meter o Benfica acima de tudo o resto que há no Mundo, o que, claro está, é ridículo e claramente exagerado. Na minha família corre esse mito, sobre a minha suposta doença, apenas porque, durante a minha infância, o meu quarto tinha paredes verdes e eu, como não gostava da cor, andei um ano a recolher todos os posters, velhos e novos, artigos, cromos, galhardetes, fotografias e caricaturas do Benfica, correndo todos os cafés da zona e apanhando todos os jornais desportivos que encontrava, para forrar o meu quarto e assim não ter um único milímetro de verde a conspurcar a minha vista. Uma coisa normal, segundo me parece. Depois ainda dizem que eu era maluco porque, de cada vez que o Benfica perdia, eu ficava tão afectado, que tirava um a um todos esses posters, artigos, cromos, galhardetes, fotografias e caricaturas que tinha colados pelo quarto e metia-os debaixo da cama, de castigo, até ganharmos o próximo jogo, pois olhar para eles derrotados doía-me mais que a vez em que rejeitei 100 contos em notas de mil escudos, do meu avô paterno, fundador da Casa do Sporting de Arganil, para mudar de clube.
Mas não sou doente. Rejeito esse rótulo. Até porque se fosse doente, tinha ficado em casa em convalescença no dia em que o Belenenses foi fazer um jogo de treino à minha terra e eu fiz uma directa e fui para o campo sete horas antes do jogo começar para guardar o lugar apenas e só porque na equipa militava o mítico Rui Esteves, jogador que um ano antes tinha feito o impressionante número de dois jogos pelo Glorioso. Sim! Não sou doente, porque se fosse não tinha hoje um autógrafo do Rui Esteves guardado no cofre do meu quarto. Nem seria a única pessoa, no meio do Estádio da Luz cheio, num Benfica-Braga, que obviamente vencemos por 3-1, a reconhecer no meio da multidão a lenda viva King, o gigante defesa central que tem o assombroso total de zero minutos jogados pelo clube e cujo autógrafo, que suspeito que seja o único que deu na vida, repousa ao lado do de Rui Esteves na segurança do meu mini cofre.
Portanto, com isto tudo quero apenas dizer que não sou doente. Estou é apaixonado pelo Benfica há 30 anos! E se acham que a paixão é doença, não percebem nada destas coisas do romance.


Humorista, guionista e stand-up comedian, podem vê-lo com Paulo Almeida no dia 25 no Popular Alvalade, em Lisboa, no espectáculo (in)Popular.

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Um comentário sobre “Rui Cruz

  1. Esqueceste de mencionar que toda a tua familia paterna e do Sporting, desde avos, pai, tias,etc, ate aos primos em vigesimo grau..

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