Rúben Branco

Eu e futebol é uma relação que nunca aconteceu. Nem eu queria, nem o futebol sente a falta de um gajo como eu. Ficamos melhor assim, cada um com aquilo realmente importa para si: eu com stand-up e o meu canal de YouTube; o futebol fica com a euforia e adeptos fanáticos. Pelo menos é isso que para mim resume o futebol. Passei longos anos sem ver um jogo, festejar um golo ou gritar o que quer que fosse sobre a mãe de quem fosse. Sempre passei ao lado de tudo isso, até que um dia isso mudou.
Estava na altura a acompanhar a tour de um outro comediante nacional e uma das datas que íamos fazer era na zona norte do país, em Vila Real. O espectáculo em questão era em Novembro, por isso somem os quilómetros que fizemos de carrinha, o cansaço de produzir o espectáculo e o frio que se fazia sentir quando tudo estava feito. Eu só queria dormir. Porém, aparentemente, eu era o único com essa ideia, porque mais ninguém apoiou isso. Resultado? Eram 2h da manhã e eu estava numa Toyota Hiace, a rachar a A4 até Barcelos porque no dia seguinte íamos ver, pelas 11h da manhã (sim, eu também não queria acreditar quando me disseram a que horas era esta brincadeira) o jogo Gil Vicente-Portimonense.
Viagem feita, chegámos ao hotel previamente reservado para nos acolher naquela noite e tentámos descansar. Pelo meio ainda deu para ficar sozinho no quarto que estava a dividir com outro rapaz (que entretanto havia saído para ir buscar comida, uma tarefa que se revelou bastante complicada pelas 4h da manhã, em Novembro, com temperaturas negativas, a meio de Barcelos), tomei um banho descansado e antes que ele voltasse deixei a janela da casa de banho aberta para arejar um pouco, o que se revelou bastante desagradável para ele porque imaginem como ficaram aqueles quatro metros quadrados depois de estarem com a janela aberta às 4h da manhã, em Novembro, com temperaturas negativas, a meio de Barcelos. Como terminou essa noite? Como terminam todas as minhas noites em que tento safar alguma miúda: chamam-me nomes e acabo por não comer nada.
Na manhã seguinte era o elemento menos entusiasmado com o embate futebolístico que íamos ver… Até chegarmos ao estádio. Verdade, algo em mim mudou, soltou o meu lado mais agressivo e naquele momento senti que era totalmente livre de poder mostrar o meu total e incondicional apoio por um grupo de homens que se se cruzassem comigo na rua eu não identificaria como jogadores de futebol, tanto naquela altura como agora. Não me recordo de nenhum, mas espero que o Portimonense e a sua claque recordem o homem que mais apoiou naquele jogo.
Estádio praticamente vazio, eu com pouco conhecimento técnico e nenhum conhecimento dos jogadores/equipas em campo, havia pouca coisa que eu poderia fazer para mostrar por qual dos lados estava a torcer, pelo que decidi ir pelo caminho mais simples, mas não menos sentido: o da ofensa. É verdade, não me orgulho, mas todo aquele jogo para mim se resumiu à frase “O guarda-redes é um boi!”, sempre que o guardião do Gil Vicente pegava na redondinha (acho, sempre que oiço esta expressão, que se está a falar de uma rapariga gordinha).
Claro que é normal haver agora algumas questões sobre o assunto:
Se ele gostou? Penso que não.
Se a claque gostou? Penso que apenas alguns elementos.
Se eu gostei? Imenso.
Se eu repetiria? Não, porque fiquei sem voz dois ou três dias.
Se foi importante para mim? Bem, acho que posso dizer que me diverti, mas nem me lembro do resultado do encontro.
E para mim o futebol devia ser isto! Não importa quem ganha nem quem perde, importa que toda a gente se divirta e que os gajos que são bois fiquem a saber que o são.


Comediante desde 2015, apresenta-se como “O Rei do Underground” e além dos espectáculos um pouco por todo o país pode segui-lo no seu canal do YouTube. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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