Rodrigo Coimbra

Longe dos grandes centros urbanos, as primeiras memórias levam-me até ao peladão e bancada de pedra do estádio Dr. Estevão Faria, na ‘minha’ Santa Comba Dão. Que saudades das tardes em que o meu avô João pegava em mim e me levava a ver a bola. Ouvir aqueles adeptos mais frenéticos lançarem o belo do impropério ao senhor do apito!
Era um miúdo e as noções sobre o jogo eram poucas ou nenhumas, mas isso pouco importava ao lado de tão boa companhia.
As saudades desses tempos são muitas e ao folhear o livro de memórias chego a um dos momentos mais marcantes e do qual não tenho como fugir: Campeonato da Europa de Sub-17 (2003), conquistado por Portugal, em Viseu.
Tinha 10 anos e tive a felicidade de viver toda aquela viagem fantástica até à conquista do ouro praticamente na primeira pessoa. Tudo por culpa de um senhor chamado João Coimbra. O João, então um dos jovens mais promissores do Benfica, era uma das escolhas do selecionador António Violante e eu era o primo caçula fascinado com aquele mundo.
Lembro-me perfeitamente de acompanhar a equipa, por exemplo, na visita aos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Santa Comba Dão e ser recebido pelo presidente da autarquia como se fizesse parte do grupo. Pelo caminho, lá fui sendo apresentado a alguns jogadores que ainda não tinha conhecido, um deles o capitão Miguel Veloso, que viria a chegar à Seleção A.
‘Olha Rodrigo, este é o Miguel, Miguel este é o meu primo Rodrigo.’ Apresentação perfeitamente normal para um momento… parvo. Armado em engraçadinho, lancei a minha mão ao encontro da mão do Miguel, mas foi aí que decidi aplicar a mais velha das fintas e afastar a minha mão, apertando em seguida o nariz e soltar algo como: buhhhhh.
Ri-me como se de uma conquista se tratasse e o Miguel retribuiu com um calduço. Toma lá que é para aprenderes. Merecido! Mas não foi a única vítima desta parvoíce. Alguns em dose dupla.
Seguiu-se o acompanhamento dos quatro jogos que nos levaram até à final, e depois a derradeira batalha frente à Espanha de um tal de David Silva, onde o grande herói foi o Maradoninha [Márcio Sousa]. Que pé esquerdo incrível! Infelizmente, e até de forma algo incompreensiva, um dos poucos que não conseguiu atingir o topo do futebol nacional.
Após aquele triunfo, muitos deles perceberam que teriam futuro assegurado no futebol profissional e eu hoje posso dizer com alguma certeza que aquela conquista também ajudou a definir o meu caminho.
Depois de enganar dentro das quatro linhas, entre GD Santacombadense e CD Tondela, numa altura em que os beirões ainda estavam longe da nata do futebol português, percebi que o meu campo teria de ser outro.
O jornalismo foi o caminho mais fácil e foi também o trajeto que me permitiu ir ao encontro do passado. Quinze anos depois, tive a oportunidade de fazer um trabalho sobre os heróis do Fontelo. Hoje homens feitos. Bruno Gama, Tiago Gomes, Carlos Saleiro, Manuel Curto, João Pedro, Márcio Sousa, João Coimbra e o mister António Violante.
Nunca estive tão nervoso como naquele dia. Não por não saber o que perguntar, mas por saber que tinha todas as respostas na minha cabeça. Afinal, eu estive lá com eles em 2003. E fui campeão à minha maneira. Pelo menos naquela ‘finta’ ao Miguel Veloso levei a medalha de ouro.


Licenciado em Jornalismo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Rodrigo Coimbra deu os primeiros passos no mundo do jornalismo no jornal A BOLA. Atualmente é jornalista no zerozero.pt Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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