Rita Nabeiro

Era uma segunda-feira como tantas outras. Os passos pesados e apressados do professor César já se ouviam no fundo do corredor. Ainda não eram 08h00 quando entrou na sala de aula e despiu o fato de mota que pingava por causa da chuva. Com uma voz grave e forte que ainda hoje ecoa na minha memória, restabeleceu a ordem no grupo de adolescentes que tinha pela frente. Antes de começar a falar sobre Platão, Aristóteles ou Kant, a filosofia era da bola. Fez uma pausa, olhou para mim e dirige-me a primeira pergunta da manhã: “Então Rita, o que aconteceu ao Campomaiorense?”
Dias antes, mais precisamente no dia 8 de Março, o meu Sporting Clube Campomaiorense tinha defrontado o Futebol Clube do Porto. Nessa altura a vila alentejana enchia-se de festa para receber os grandes e era conhecida pela sua hospitalidade. Ir à bola era um ritual quinzenal que o meu irmão seguia à risca e eu seguia-o a ele. Só assim se consegue explicar como é que naquela altura eu discutia ombro a ombro com os meus colegas de turma, os penáltis, os jogadores, as faltas e os foras de jogo.
Mas o jogo do Campomaiorense-Porto ficaria gravado na história e na memória de muitos pelas piores razões. O jogo corria bem para a equipa da casa que, aos 88 minutos de jogo estava a empatar com um dos grandes do futebol português. Nesse minuto surge o momento do jogo: um empurrão, uma falta que é esquecida, um canto, outra falta e, para meu desespero e de muitos simpatizantes do Campomaiorense, o golo do adversário. Foi como se levássemos um murro no estômago. Eu assistia a tudo isto no topo da bancada de sócios. Encolhida no banco, lembro-me de sentir entre tristeza, injustiça e frustração.
O sentimento era colectivo e o sangue dos jogadores e adeptos ferveu naquela noite fria de Março. A partir daí começou uma batalha campal que se assemelhava a uma luta entre gauleses e romanos. Entre os festejos dos visitantes, os protestos dos da casa, os empurrões e os cartões de várias cores, reinava a confusão.
No campo, os jogadores refilavam com o árbitro e o Vítor Baía, na altura guarda-redes do Porto, dirige-se ao banco do Campomaiorense. É nesse instante que o director desportivo da equipa da casa, Pedro Murcela Obélix, decide dar uma valente palmada na cara do então “herói nacional”. Este responde com uma valente morcelada, digna de passarinhos a rodopiar na cabeça. A partir daí foi sempre a piorar e colocar ordem na pacata massa associativa não foi tarefa fácil.
O jogo terminou com a vitória do visitante por 0-1 e era preciso retirar o presidente Pinto da Costa do camarote, mas no fundo das escadas, que davam acesso à saída, esperava-o uma multidão em fúria. Perante este cenário de aldeia gaulesa era necessário agir. O meu pai, e então presidente do Campomaiorense, tenta dispersar a população pedindo-lhes que se fossem embora. Nada! O tempo passava e para espanto de todos começa a despir o casaco e, de seguida, botão a botão despe a camisa também. Naquele momento pensei que o meu pai tinha enlouquecido e quase morri de vergonha. Até que ele diz bem alto para todos: “eu dou-vos o futebol, por vocês até dou a minha camisa, mas por favor vão-se embora”.
Não sei se foi disso ou do belo espectáculo de strip-tease, mas a população lá começou a acalmar e a dispersar. O presidente do Porto teve de ser escoltado e saiu em segurança.
Tudo acabaria bem, excepto para o Campomaiorense que, nessa época (1995/96) acabaria de descer de divisão, ironicamente por um ponto. Voltaria a subir na seguinte. O Pedro Murcela e o Vítor Baía não se livraram de ir para o castigo. Acabariam por se reconciliar, depois de estarem de relações cortadas durante um ano.
Nessa manhã os 15 minutos dedicados ao futebol tiveram direito a prolongamento. Explicado o episódio ao professor César, voltámos à alegoria da caverna e à filosofia real.


Formada em Design de Comunicação, em 2012 assumiu a direcção geral da Adega Mayor, projecto vinícola do Grupo Nabeiro – Delta Cafés.

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