Rita Marrafa de Carvalho

O mês de Junho de 2010 fez-se aos saltos. De Lisboa para Joanesburgo. De Joanesburgo para Durban… Port Elizabeth. Magaliesburg, localidade onde a Selecção portuguesa de futebol montara o centro de estágio. Malas de cá, para lá. A câmara e o tripé. Hotéis e motoristas, acreditações em todas as cidades. Fazer a cobertura do Mundial de futebol era um desafio inegável.
A missão era simples num país social e culturalmente conturbado desde sempre. De uma dimensão continental, repleto de pontos e focos e olhares para explorar. Eu e o repórter de imagem Carlos Matias tínhamos, todos os dias, de contar uma estória à margem da bola, do campo, dos jogos. As máquinas dispensadoras de preservativos nas casas-de-banho dos estádios. Ou como se vivia no Soweto, com o tráfico de droga e os raptos à porta. Ou os talhos dos mercados ao ar livre, com carne pendurada nos troncos de árvores, repletas de moscas a queimar ao sol.
Durante aquele mês, mudámos de cidade. Mudámos de hotel. Mudámos de motorista. Vezes sem conta. Antecipar-nos ao jogo que a Selecção iria encontrar daí a uns dias e enviar reportagens sobre tudo o que achasse realmente interessante. Os motoristas eram todos negros. Homens afáveis, condutores de mestria duvidosa, incansáveis nas longas horas de trabalho. Encontravam ali, naquela ocupação de um mês, um meio de reforço ao pouco que ganhavam diariamente nas suas ocupações.
Um era condutor de autocarros, outro trabalhava numa oficina.… Mthunzi Agreement, pequeno e saltitante, era funcionário dos correios. Baixo, barba de três dias, aparentava muito mais do que os seus 35 anos. Perguntei-lhe se tinha filhos. Five. Insisti: All from the same wife? Diz-me que sim perentoriamente. Que é Zulu e que a sua etnia tem, frequentemente, várias mulheres mas justifica o desvio: Can’t afford it!
Fala muito da mulher. Que ela e o carro que comprou são os seus bens mais preciosos! E que, por isso, não pode deixar o carro e a mulher no bairro onde vive. Demasiado perigoso. They are the most valuable things I have! If I lose one, I can’t lose the other one.
Mthunzi tem pouco interesse no futebol. Conhece Figo e Cristiano Ronaldo mas pouco centra os olhos na televisão para ver os jogos. Remata: I have to work hard. No time.
Mthunzi tem uma obsessão homicida por destruir a embraiagem à pisadela. Pedi-lhe conselho entre semáforos: que podíamos mostrar ao mundo naquele dia? Mthunzi levou-nos ao bairro onde cresceu.
Umlazi era a segunda maior township da África do Sul, a sudoeste de Durban. Mostra, orgulhoso, a cidadela. Tem 400 mil pessoas, este bairro entalado entre pequenos vales e montes, de estradas encurvadas. Explica, sorrindo, que ali todo o espaço é aproveitado. Que se constrói como se planta. Next morning you wake up, look at the window and say: Oh, I have got a neighbour!
Perguntou-nos se podia dar boleia à mãe, uma curandeira de mão cheia, segundo nos explica. Encontra-a ao fundo de uma rua. De cabelo branco tapado por um lenço, abraça-nos de saco cheio de mistelas e “pustelas”, sucos e mucos. Ao lado, a neta, uma sobrinha de Mthunzi. Vão a caminho da casa de outra curandeira. No banco de trás, Nelly, a mãe curandeira, e a neta, Mbalenhle Audrey, sentaram-se com pequenos cochichos e risos ao meu lado. A meio do caminho, senti uma mão a tocar-me. Mbalenhle esticava o braço entre os bancos para segurar em alguns fios do meu cabelo. Suave. Muito suave. Com uma delicadeza respeitosa, passava os seus dedos pelas madeixas da minha guedelha. Ri-me…. Disse-lhe how nice.
As mulheres africanas gastam dinheiro, muito, numa luta constante contra os desígnios capilares da genética. Extensões, perucas, aplicações, tranças. Mbalenhle Andrey tem uma carapinha curta que lhe estreita o pescoço. Um rosto lindo. Por isso, quando o carro pára frente à casa da healer, desço e seguro-lhe a face com as duas mãos. You have a beautiful hair! Ela sorri enquanto lhe passo com as mãos pelo cabelo antes de seguir a avó e entrar no interior da casa.
Mthunzi agradece-nos o desvio de rota quando passamos por dois miúdos que jogam à bola. Uma bola já sem ar, sem cor do uso, a pelar. Param, extasiados, e gritam. Mthunzi explica: They’re saying in Zulu “Look, white people!”  E acrescenta: aqui, não existem brancos. Aqui, poucas crianças os viram, ao vivo, alguma vez na vida.
Daí a dois dias, Portugal e Brasil encontram-se em Durban, a cidade onde Fernando Pessoa viveu quase dez anos durante a adolescência. Mthunzi, dessa vez, viu o jogo. E fez questão de me contar. Que aquele empate soube-lhe a pouco.


Depois de ter feito rádio e passado pela imprensa escrita, é jornalista da RTP desde 2000, onde coordenou o Telejornal e o programa 30 Minutos. Actualmente é sub-editora de Sociedade. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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