Ricky

Tinha acabado o contrato com o Estrela da Amadora depois do meu segundo ano no clube. Estava em casa, no Monte do Estoril, e o presidente do Beira-Mar ligou-me. Eram umas três horas da tarde. E ele disse-me:
– Ricky, quero que venha a Aveiro para conversarmos. Você é um jogador livre e estamos interessados em tê-lo no Beira-Mar.
– Está bom, presidente. Vou conversar com o senhor, mas não vou decidir nada ainda.
– Apanhe o comboio em Lisboa amanhã de manhã. Você pára aqui em Aveiro e vou estar à espera na estação.
– Ok, presidente. Então amanhã a gente conversa.
Quando desliguei o telefone recebi outra chamada. Era o major Valentim Loureiro, presidente do Boavista. Perguntou-me o que estava a fazer e respondi que ia viajar no dia seguinte.
– Não, não, não, não. Já emiti um bilhete de avião. Você vem para o Porto para conversar comigo. O Manuel José já me disse que queria que você viesse para o Boavista.
Já eram quase sete horas da noite.
– Presidente, amanhã de manhã tenho de estar em Aveiro. Tenho um compromisso, mas não posso dizer-lhe o que é.
Ele insistiu e convenceu-me. Apanhei o avião naquela noite, devo ter chegado ao Porto por volta das dez da noite e ele foi buscar-me ao aeroporto.
– Presidente, quero cumprir a minha palavra com o presidente do Beira-Mar. Ele está à minha espera amanhã, vai apanhar-me na estação de comboio e quero falar com ele. Depois estou livre para falar com o senhor.
Já era quase meia-noite e ele tentava convencer-me.
– Ricky, nós queremos você aqui. O que é que você quer?
– Presidente, ganho X no Estrela (penso que eram 200 mil dólares por ano), acho que não é justo ganhar menos.
Ele disse que me podia aumentar mais um pouco.
– Mais um pouco? Não, presidente, tem de aumentar muito mais. Fui o terceiro melhor marcador do campeonato!
Ele insistia. Já passava da meia-noite e disse-lhe que ia ligar à minha esposa. Liguei para casa, disse-lhe o que estava a acontecer e ela:
– Espere até amanhã. Você deu a sua palavra ao presidente do Beira-Mar. Espere.
Voltei a falar com o major.
– Presidente, pelo amor de Deus. Vou arranjar um hotel aqui no Porto. Amanhã de manhã, depois de conversar com ele, volto e converso com o senhor.
Quase duas da manhã e não é que o presidente me convenceu a assinar pelo Boavista? Fiquei com as mãos atadas! A dada altura disse-lhe:
– Presidente, espera aí. O senhor não aumentou o meu salário. Vamos fazer uma coisa.
– Diz, diz.
Disse-me naquele jeito dele. É um sujeito que eu adoro! Ele diz-te uma coisa e não é preciso escrever. Se ele diz que é X, ele não muda e cumpre. É um homem do bem. Tive o prazer de ser seu jogador. Então eu disse-lhe:
– Presidente, já que não quer aumentar o meu salário, vamos fazer uma coisa: por cada golo que eu marcar no campeonato, na Taça de Portugal ou na Taça UEFA você paga-me um bónus de mil contos. O senhor topa?
– Topo. Vamos! Não vou escrever porque o contrato já está feito, mas eu vou pagar.
E teve azar porque nessa época, em 91/92, eu fiz mais de 30 golos entre campeonato e tudo o resto. Sempre que se cruzava comigo no balneário dizia-me:
– Você enganou-me. Você sabia que ia marcar muitos golos.
E pagou tudo, não ficou a dever nada. É um homem do bem. Não é só pela parte do dinheiro que o digo. Tenho muitas saudades dele.
No dia seguinte recebi uma chamada do presidente do Beira-Mar e disse-lhe:
– Presidente, peço perdão, fiquei de ir aí mas tive de parar no Porto. Assinei pelo Boavista.
Até hoje ele não me perdoou!
Outra história interessante dos tempos do Boavista. No balneário usávamos shampoo e gel de duche, essas coisas. Um belo dia disse aos meus colegas:
– Vocês ficam brigando por causa do shampoo. Eu vou comprar shampoo, vocês podem abrir o meu armário todos os dias, de manhã, de tarde, de noite, sempre que precisarem podem abrir porque têm o shampoo do povo.
Aquilo virou uma história porque todos os jogadores sempre que iam tomar banho iam ao meu armário buscar shampoo. Jaime Alves, Caetano, Pedro Barny, todos iam buscar shampoo. Colegas fantásticos!


Otto Glória levou-o da Nigéria para o Brasil, passou por França e chegou a Portugal em 1988, para o Benfica. Brilhou no E. Amadora e no Boavista e, por cá, jogou ainda no Belenenses.

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5 comentários sobre “Ricky

  1. O Senhor sempre esteve contigo. Foram bons tempos e pudemos de perto ter a vossa amizade e desfrutar de bons momentos. Foste uma estrela que brilhou no futebol em Portugal. Ainda hoje muitas pessoas que conheço e falo de ti, todas te reconhecem e falam do bom jogador que eras. O tempo passa e fica a saudade. Beijinhos Ricky.

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