Ricardo S. Amorim

Para algumas pessoas, que até me conhecem relativamente bem, representará uma surpresa saber que o futebol faz parte da minha vida e da minha formação enquanto pessoa. Gosto do desporto, do espectáculo de massas que apaixona milhões, mas não sou um fanático que não perde um jogo, mesmo do meu clube ou da nossa selecção. Porém, estou certo de que seria outra pessoa se não fosse o futebol e do papel que o mesmo desempenhou na minha vida.
Nunca tive jeito para jogar, excepção feita ao jogo aéreo, pois sabia cabecear bem, mas o drible e a velocidade nunca foram o meu forte. Dava “pau”, admito, mas nunca aleijei ninguém. No meu bairro, jogávamos num terreno rectangular que tinha um enorme pinheiro manso junto a uma das áreas. Tinha um amigo canhoto que se especializou num drible que envolvia o perímetro do pinheiro em slalom, para depois rematar cruzado, e o sacana tinha um petardo que não raras vezes dava em golo. Por vezes, um pontapé para o ar resultava na bola ficar presa nos ramos do pinheiro, e a forma de a tirar de lá era à pedrada. Atirávamos calhaus à bola na esperança de a mover de modo a que caísse. Quando não resultava, ou por falta de pontaria ou por deixarmos a bola mais presa noutros ramos, algum mais aventureiro tinha de subir ao pinheiro, até uma altura equivalente a uns dois andares. Não sei como nunca nenhum daqueles miúdos caiu daquele pinheiro abaixo.
“O campo”, como lhe chamávamos, era o centro dos nossos dias e das nossas vivências, onde convivíamos e jogávamos à bola todo o ano, sendo que a parte junto ao pinheiro ficava com água pelos tornozelos quando chovia. Ali, os cantos eram marcados a partir do passeio, pois havia um lago onde deveria estar a bandeirola. Durante muitos anos as balizas eram pedras, que levavam a grandes discussões sobre se teria sido golo ou não, mas um dia alguém se lembrou de levar um machado da garagem do pai e fomos todos ao pinhal buscar postes para montar duas balizas. Na parte mais longínqua desse pinhal, a geração antes da nossa, devassada pelo “cavalo”, deixava seringas, colheres queimadas e limões espremidos, enquanto na mais próxima do campo alguns vizinhos levavam os cães a passear, e por vezes a bola também lá ia parar.
Uma das histórias mais míticas do meu bairro é quando um daqueles miúdos vê onde a bola caiu, a pega cuidadosamente e lhe dá um chuto por baixo, gritando para o pessoal que estava no campo: “tem merda!”. Houve alguém que não ouviu, e parou a bola de peito, que depois lhe bate na cara, ficando com a t-shirt e a cara com um rasto castanho, perante a gargalhada de todos.
Ali, ou jogávamos entre nós, com os menos habilidosos e mais novos na baliza (e tantas vezes que me calhou a mim), ou jogávamos contra os bairros vizinhos, em derbies apaixonantes que chegavam a ter algumas dezenas de pessoas a assistir, e bem podiam acabar em pancadaria. Esses jogos podiam acontecer espontaneamente ou previamente agendados, e quando os marcávamos, os dias anteriores eram de grande nervosismo. Era o nosso orgulho de bairro que estava em cheque e vivíamos tudo aquilo com grande intensidade. Perder era mau, levar na tromba era pior.
À medida que crescemos, fomos percebendo que ir beber imperiais depois do jogo era bem mais fixe que andar à porrada, independentemente do resultado, e assim os laços de amizade estenderam-se geograficamente além daquelas ruas mais próximas. Há amizades que hoje mantenho, com maior ou menor distanciamento, mas de muitos não me lembro dos seus nomes ou sequer das suas caras. Porém, tenho saudades de todos eles e do tempo em que o futebol era o centro da minha vida.


Jornalista, colabora desde 2011 com a LOUD!, onde foi um dos impulsionadores da secção “Quadro de Honra”, que originou um livro. Escreveu ainda “Lobos que foram Homens”, a biografia dos Moonspell.

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