Ricardo Costa

Houve momentos no meu último ano no Valência em que foi muito difícil. No primeiro jogo na Liga Europa, com o Swansea em casa, o Rami foi expulso aos dez minutos e, de um momento para o outro, 1-0, 2-0, 3-0, os adeptos sempre a assobiar e já pensava “quando isto acabar vai haver uma confusão dos diabos.” Mal acabou o jogo, que perdemos 3-0, levámos com very-lights dentro do balneário, ficámos umas duas horas dentro do estádio e tínhamos uns mil adeptos à nossa espera para nos matar ou partirem-nos tudo!
Foi quando pensei: “vou dar uma de maluco. Sou um dos capitães, tenho de dar a cara. Vou lá!” Cheguei lá fora e só pedia a Deus para que não houvesse pancadaria porque eu ali no meio sozinho estava condenado. Mas foi daqueles momentos em que dizes: “tenho de ir!” E vais. E foi das melhores sensações que tive na vida! Estive a falar no meio dos adeptos, ouvi-os, pediam para defender o símbolo, quase a cuspirem-me de nervos. Cheguei lá e queriam matar-me e saí de lá quase em ombros. “Valência! Valência até à morte! Vamos ganhar no fim-de-semana!”
Como é possível mudar as coisas em cinco minutos? Tudo acalmou, toda a gente se foi embora e, graças a Deus, as coisas correram bem. Depois ganhámos no fim-de-semana e já éramos os melhores. É também por estes momentos que o futebol é bonito.
São coisas marcantes e ainda hoje tenho uma relação chegada com aqueles adeptos porque ganhei esse respeito por dar sempre a cara. Sempre lhes disse que estávamos lá para sermos mais um e que queríamos ajudar, mas há dias em que não consegues. Só o sair e ouvir o que tinham para dizer eles guardam como uma recordação de ser mais um valencianista. Quando chego a Valência as pessoas abrem-me as portas. Fui bem recebido, ajudaram-me imenso, mas dei a minha força, dei a minha pessoa, dei o que pude e mais não pude para ajudar o Valência nas suas lutas diárias. Não consegui nenhum título mas consegui o reconhecimento das pessoas e o título mais pessoal, o carinho das pessoas, que é o mais difícil de adquirir. Para seres capitão tens de ter uma personalidade diferente: tens de sobressair, ser verdadeiro e quando os outros fogem tu dás a cara e assumes as consequências. Um líder sabe lidar com essas situações.
No FC Porto, no ano em que tivemos três treinadores, o último foi o Couceiro, também tivemos muitos problemas. Os adeptos esperavam por nós e sabemos que o líder dos Super Dragões é uma pessoa espectacular mas também quer ganhar. E tínhamos de entender isso. Eles estavam a puxar por nós e perguntavam:
– Por que é que vocês não ganham? Queremos ganhar, vocês têm de ganhar!
– Não sei o que se passa, mas nós também queremos ganhar.
E são precisos líderes numa equipa de futebol, nas sociedades e no Mundo. São pessoas diferentes. Uns não se interessam, outros têm medo, mas outros dizem: “não, eu vou lá!” E tentar solucionar o que der para solucionar. Às vezes é irredutível, não dá para fazer nada, mas tentas fazer o melhor que podes, o melhor que sabes e o melhor para o grupo e a instituição que representas.


Venceu tudo pelo FC Porto, foi campeão na Alemanha pelo Wolfsburg e esteve presente em três Mundiais e um Europeu. Aos 35 anos representa o Luzern, na Suíça.

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