Ricardo Chéu

Iniciei a minha carreira um pouco contra os meus pensamentos na altura. Era adjunto de um treinador que apreciava, e que aprecio, o seu trabalho, o Jorge Costa, e por factores externos acabei por ficar um pouco fora da posição que ocupava. Ainda avancei com um projecto com o Bruno Moura e iniciei a minha carreira muito prematuramente, aos 31 anos. Sentia-me preparado, pensava iniciar essa carreira como treinador principal por volta dos 38 anos, quando tivesse uma experiência diferente.
Iniciei um projecto no Mirandela, um clube de II B no qual as expectativas eram muito altas em função da época anterior mas em que o investimento foi muito baixo. Na altura, eu e o responsável pelo clube escolhemos alguns jogadores que eram miúdos que sabíamos que tinham qualidade mas não conheciam a realidade da II B, que é um campeonato muito competitivo. Lembro-me que nesse ano apareceram o João Amaral e o Ruca, que estão no V. Setúbal, o Fábio Fortes, que esteve no Penafiel, jogadores com potencial e muita qualidade mas que não deixavam de ser miúdos.
O passo seguinte foi saltar para o Académico de Viseu, um clube que estava com muitas dificuldades num ano de transição por ter subido de divisão, e tinha de substituir um treinador que era experiente. Tive de impor as minhas ideias num plantel com grandes nomes do futebol português, alguns chegaram a representar a Selecção Nacional, como o João Alves, e jogadores internacionais pelos seus países, como o Cafú.
As coisas correram tão bem que passados três meses tive um convite e aquilo que mais me arrependo até hoje foi de não o ter aceite também por ser leal à minha palavra. Na altura surgiu o Belenenses, eu olhava para trás e pensava que estava a iniciar uma carreira tão novo e, de um momento para o outro, no espaço de uma época, poder saltar da II B para a II Liga e da II Liga para a I Liga. A minha palavra foi mais fiel do que tudo e não aceitei esse projecto, que era tentador. Acabaria por ir para lá o treinador Lito Vidigal, que fez uma carreira brilhante no Belenenses, mas por vezes penso que essa carreira brilhante podia ter acontecido comigo. Não dei esse passo.
No final da época tive algumas abordagens para ir para bons clubes da I Liga, o que é certo é que as coisas foram-se arrastando. Já tinha perdido uma oportunidade e não podia perder uma segunda, quando apareceu aceitei e fui para o Penafiel, mas foi um passo em falso que dei na minha carreira. Se fosse hoje não teria aceitado esse projecto porque penso que fui iludido por algumas coisas que me foram transmitidas que iriam acontecer e não aconteceram. Foi um projecto no qual também não me deram tempo. Um treinador jovem como eu foi avaliado em quatro jogos. Relembro até que, se calhar, já aconteceu depois da minha saída do Penafiel treinadores perderem quatro jogos consecutivos e não foram despedidos, mas na altura não houve margem de manobra para que continuasse. Muitas pessoas estavam desde o início contra o meu nome por ser jovem, não me quiseram dar essa oportunidade de continuidade e acabei por sair. Na altura fui o treinador mais jovem a atingir a I Divisão. A idade para mim não é sinónimo de competência, mas muita gente se calhar não pensa assim e não me deram a oportunidade de continuar entre os melhores. Se tivesse agarrado a oportunidade de ir para a I Liga três ou quatro meses antes, se calhar a minha carreira não estaria como está neste momento.
Voltei ao Académico de Viseu, um sítio do qual aprendi a gostar, adoro aquele clube, voltei para ser feliz e acho que acabei por ser feliz. Também encontrei a equipa num mau momento, as coisas foram-se compondo, e o clube acabou numa posição muito tranquila. Iniciei um novo projecto no Académico de Viseu, mesmo tendo rejeitado outras situações porque não quis passar pelo mesmo erro anterior. As coisas estavam a correr bem e o compromisso seria fazer melhor do que na época anterior. Tínhamos acabado no 12.º lugar e quando sou abordado pelo presidente para sair do clube estávamos no 10.º lugar. Após a minha saída, o clube conseguiu a manutenção na última jornada. Foi uma época difícil mas que poderia ter sido evitada, acredito eu, por aquilo que estavam a ser os dados que a equipa ia dando ao longo da temporada.
Acho que a minha carreira está um pouco marcada pelo passo em falso que dei em Penafiel, que se calhar não o deveria ter dado ou pelo menos dentro de outras condições que não foram proporcionadas. Neste momento sinto-me um pouco nessa onda de tristeza e frustração por não ter tido ainda outra oportunidade, se bem que sou bastante jovem e acredito que vou chegar novamente à I Liga e provar a algumas pessoas que estavam erradas quando quiseram a minha não continuidade à frente do clube na I Liga.
Às vezes, tal como existem jogadores que passam ao lado de grandes carreiras, também existem carreiras de treinadores que ficam manchadas por pequenas coisas com as quais nada têm a ver ou pelo menos não têm uma responsabilidade tão grande como aquela que lhes é atribuída. Muitas vezes somos avaliados por factores que nada dizem respeito à nossa competência. Mas é a profissão que escolhemos, sabemos que é uma profissão de risco, temos de lidar com muitas cabeças, temos de fazer entrar aquilo que são as nossas ideias na cabeça dos outros para poderem ser assimiladas e postas em prática domingo a domingo, mas muitas vezes as nossas intenções estão longe daquilo que nós vemos no jogo, porque não queremos que o jogador falhe um penálti ou um passe. São situações que treinamos mas que não conseguimos controlar, embora tenhamos de estar preparados para isso e eu estou preparado para isso. Este período em que estou parado, desde a minha saída do Académico de Viseu até hoje, também me fez reflectir muito sobre aquilo que é a posição do treinador e o que será a minha abordagem num futuro próximo, espero eu, num novo projecto, porque fez-me crescer, independentemente de não estar no activo. Fez-me pensar o futebol de uma forma diferente, fez-me crescer e acredito que não vou cometer os mesmos erros que cometi no passado. Faz parte do crescimento e acredito que as coisas vão levar outro rumo porque trabalho, mesmo estando parado, todos os dias, muitas das vezes a pôr no papel aquilo em que não posso falhar e o que pretendo no futuro.


Aos 31 anos era treinador principal do Mirandela, na II divisão B, treinou o Académico de Viseu na II Liga e teve uma curta passagem pela I Liga, ao serviço do Penafiel. Hoje lidera o Freamunde, na II Liga.

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5 comentários sobre “Ricardo Chéu

  1. O mundo do futebol é muito difícil e outros interesses se levantam, além da competência, carácter e profissionalismo, mas acredito que nesse meio ainda há gente minimamente séria e atenta e em breve terás a oportunidade de continuar a construir a tua carreira de sucesso, abraço.

  2. Para a frente é que é o caminho e tu sabes dar esses passos em frente. Um voltar atrás, um arrepiar caminho, também é seguir em frente, também é crescer e aprender, como este texto mostra bem isso! Confio que tu, sedento e amante do futebol, como eu me lembro, irás construir uma carreira sólida no desporto rei!

  3. Amigo Ricardo para a frente é o caminho e passado já ficou para trás…. tens valor e trabalhas com paixão além de que és dedicado à tua nada fácil profissão.
    Muitas Felicidades e um Grande abraço deste teu Amigo.
    Armando Santos

  4. Vai enfrente,não vires as costas,és honesto tens valor de todos Fozcoenses e de toda gente do concelho,vamos a luta,um abraço deste teu amigo Armando Castro.

  5. amigo cheu segundo me pareçe tiveste uma oportunidade de ouro para treinares um club historico com uma massa associativa de fazer inveja ou nao eras capaz por isso quizeste continuar em viseu em detrimento do leixoes

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