Pitico

Na época de 1988/89, o Farense teve como treinador o José Augusto, depois o Malcolm Allison, o inglês que treinou o Sporting e o V. Setúbal. Por acaso tínhamos uma equipa muito boa. O gajo chega aqui e tirou todos os negões da equipa. Tirou todo o mundo, tudo no banco! Nos dois primeiros jogos ainda joguei, mas ele só me dizia “cross, cross”. Eu cruzava, mas queria ir para cima, fazer golos e passados dois jogos tirou-me da equipa. Na altura fui falar com o senhor Barata, queria ir-me embora, até porque o Palmeiras queria contratar-me.
– Não te vou deixar ir embora, vou falar com ele. Vou arranjar um jeito, tens de ser convocado.
– Presidente, ele falou que não precisa de mim, vou para outro lado. Sigo a minha vida.
Aí chegou um jogo contra o Braga em casa, aquilo cheio. O Estádio do Farense estava lotado. Comecei no banco. Aos 20 minutos, o Braga faz um golo. E aí a torcida começa a gritar o meu nome. Depois o Farense empata mas o Braga faz o 2-1. Estava no banco, com o Luisão, o Eugénio e o Vitinha, e a torcida começa outra vez a gritar o meu nome. Rapaz, aquilo estava uma confusão. Nisto, o Eugénio disse-me:
– Vai aquecer.
– Como assim? Então o homem não me mandou aquecer.
– Vai aquecer que isto vai dar merda!
Eu não fui aquecer e ele pôs o Luisão, que era central, como avançado. Acabou o jogo, invadiram o campo, bateram no Malcolm Allison, bateram no Valter Ferreira e ainda deram porrada no Barata. Chegou o Domingo Desportivo e o Barata justificou:
– Epá, também acho que o Pitico tinha de jogar, mas não sou o treinador.
Depois disso, caiu o presidente, caiu o treinador, e foi quando ficou o António Boronha como presidente e o Paco Fortes como treinador. Apesar de termos descido nesse ano, foi quando o Farense começou a dar a volta.
Outra história engraçada foi com Boronha e o Ricardino. O Farense ficou muitos anos sem perder jogos importantes em casa. Qualquer equipa que viesse jogar aqui a gente ganhava. Eu era o jogador mais palhaço no balneário, estava sempre a fazer bagunça. Uma vez, íamos jogar contra o Estrela da Amadora, e nessa semana levei umas botas pretas para casa. Raspei as botas todas, pintei-as de branco com spray de carro e deixei ao sol a secar. No dia do jogo fui para o aquecimento sem as botas, estavam escondidas. Na hora de entrar para o jogo levo aquelas botas e foi uma gozação! Os jogadores do Estrela da Amadora perguntavam-me o que era aquilo, estava tudo maluco com a situação. Fiz dois jogos com as botas brancas e a Direcção do Farense chamou-me para uma reunião. O Ricardino Neto disse-me:
– Pitico, isso não pode ser. O que estás a fazer é uma gozação com a massa associativa.
– Isto é uma bota normal!
– Não, isso é muito feio e dá uma imagem de gozação, de deboche com a torcida.
Não me deixaram jogar mais com aquelas botas. Depois apareceu o Marco Simone com botas brancas e passou a ser normal. Ainda hoje, quando me cruzo com o Ricardino, ele diz-me:
– Quer dizer, não te deixei jogar com botas brancas mas hoje usam amarelas, azuis, cor-de-rosa…
Mas fui o primeiro jogador a usar botas brancas na Europa. Depois apareceu aquele gajo em Itália e hoje vêem-se botas de todas as cores.
Houve outra muito engraçada no Farense. Foi quando apareceram os cartões de multibanco. Tínhamos aí um jogador que um dia foi ao mercado, ia eu e mais uns quantos. Ele fez a compra, deu o cartão para a mulher do mercado, a moça pôs o cartão na máquina e disse-lhe que era ok, código, ok. Aí ele pega na máquina do multibanco e, em vez de pôr o código, ele chega ao pé da máquina e diz: “ok, código, ok.” Acreditas nisto?! O que o pessoal se riu!
E vou contar também como foi o meu casamento. Jogava no Central de Caruaru, de Recife. Tinha o casamento marcado há uns dois meses e a equipa nunca tinha ido para o campeonato brasileiro. Começámos a ganhar jogos, a ganhar jogos e a equipa chegou às meias-finais do campeonato pernambucano, para jogar contra o Náutico. Eu casava no sábado e o jogo era no domingo. Na quarta-feira, o presidente virou-se para mim:
– Pitico, não te vou deixar ir embora. É a primeira vez que o clube chega a esta fase, não pode ser. Eu pago as passagens para toda a família, vem todo o mundo cá.
– Presidente, não dá. Tenho de ir embora.
Isto era em Recife e a minha esposa era de Rio Grande do Sul, de Porto Alegre. Depois o treinador também falou com o presidente e fizeram-me uma proposta:
– Pitico, a gente paga as passagens, para ti e para a tua esposa, pago o hotel para passares a lua-de-mel, mas tens de vir jogar no domingo. É um jogo importante e precisamos de ti.
Liguei para a minha esposa e expliquei-lhe a situação.
– Tudo bem, não há problema. A gente faz isso, vamos embora.
Saí na quinta-feira, fui para o Rio Grande do Sul, era a umas sete horas de avião, no sábado de manhã casei, às quatro da tarde saio para apanhar o avião e quando cheguei ao aeroporto de Recife tinha um carro à minha espera e uns 200 kms para conduzir. O problema foi que o carro avariou no caminho! Agora imagina o Brasil, no meio do sertão, não passa um carro, a minha esposa cheia de medo sem saber o que fazer. Por sorte passou um carro com uns velhotes que iam mais ou menos para a zona que nós íamos e deram boleia para a gente. Chegámos ao hotel eram cinco horas da manhã. Estava lá a Direcção, tudo desesperado sem saber o que se passou e queriam que fosse para a concentração. E eu disse que não, que não ia deixar a minha esposa sozinha, ela tinha 18 anos.
– Vou para o hotel com ela e amanhã de manhã vêm buscar-me.
Eram umas cinco e meia quando cheguei ao hotel, fui para o quarto, tomei um banho e era a lua-de-mel, a mulher queria alguma coisa e eu virava a bunda:
– Não, pelo amor de Deus, tenho de jogar daqui a pouco!
Eu virava-me como podia, só queria dormir. Passei a noite a fugir, mas a mulher lá se consolou, né? Aí às 11 horas foram buscar-me para irmos almoçar, o jogo era às três da tarde, e as coisas acabaram por correr bem: ganhámos 1-0, fiz o golo e fomos à final do campeonato pernambucano. Acabou o jogo e o presidente chegou ao restaurante que havia lá no estádio e pagou tudo. Bem vistas as coisas, a festa do meu casamento foi ali depois do jogo.
Ainda hoje o pessoal goza comigo por ter estado a fugir da mulher naquela noite. Foi uma cena engraçada. Mas tem outra pior ainda!
Passou um ano e tal e fui vendido para o Sport Recife. Chego lá e só tinha jogadores com nome, que tinham vindo de grandes equipas, como o Corinthians, e eu ia de uma equipa pequena. Quem me contratou foi o Ênio Andrade, um dos melhores treinadores que passaram pelo Brasil até hoje.
Comecei a jogar, as coisas estavam a correr bem, mas naquela época o jogador brasileiro era só bandido. Só queriam noitadas, festas, e eu acabava o jogo e ia para casa. A minha esposa até estava grávida. Sempre fui certinho, acabava o jogo e o treino e ia para casa. Passaram uns meses e o ambiente comigo não estava muito bom. Estava a jogar a titular mas em termos de ambiente com os jogadores não estava bem. Um dia disseram-me que ia haver um almoço. Disse à minha esposa que ia ao almoço, que os gajos estavam a insistir. E fomos a um sítio em Recife que é tipo um aeródromo e tinha um bar lá dentro. Estava lá o pessoal no pagode, no samba, comemos peixe e tal, e no fim da tarde disse que me ia embora. Aí os jogadores disseram para voltar à noite, que era muito bom, com pagode e que tinham reservado uma mesa para irem lá com as famílias. Falei com a minha esposa e lá fomos. Chegámos, aquilo cheio de carros, quando entro nem vais acreditar… Aquilo era só putas! Aquilo à noite era um putedo! A minha esposa entra comigo naquele ambiente, ela grávida, as mulheres todas de calcinha, aquele putedo mesmo do pior, e diz-me:
– Então foi aqui que vieste almoçar com os teus amigos?
Escuta, nem imaginas a confusão que deu até ela entender que focinho de porco não é tomada… O que os gajos aprontaram para mim.


Depois de seis anos em excelente nível no Farense, jogou no Beira-Mar, Imortal, Olhanense e terminou a carreira no São Marcos.

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