Pedro Pinto

Fevereiro de 1999. Estava na CNN há seis meses e surgiu a oportunidade de irmos a Milão, para fazer uma entrevista exclusiva com o Ronaldo Fenómeno e com outros jogadores do Inter, antes de uma eliminatória da Liga dos Campeões que eles tinham contra o Manchester United.
Apesar de eu ser o rookie da equipa nessa altura, tinha apenas 24 anos, era de longe o gajo mais novo, e mais inexperiente da CNN, eles escolheram-me porque era dos que percebiam mais de futebol europeu e também falava português, portanto obviamente podia fazer a entrevista com o Ronaldo sem tradutor, o que torna tudo mais fácil e o conteúdo melhor.
Então lá fui eu, com um produtor de Atlanta, encontrámo-nos com um cameraman italiano e aterrámos pelas oito da manhã, numa sexta-feira e fomos directamente para o centro de estágios do Inter, em Appiano Gentile, no meio das montanhas, nos arredores de Milão. Tínhamos conseguido assegurar também entrevistas com muitos outros jogadores do Inter, para fazer aquela antevisão da eliminatória da Champions.
Era suposto falarmos com o Ronaldo nesse dia, na sexta, mas não aconteceu, porque ele estava lesionado. Nessa altura ele tinha aqueles problemas todos com o joelho, mais aquela polémica de ter jogado a final do Campeonato do Mundo depois de ter tido um problema que ninguém conhece ao certo antes do jogo, foi tirado do onze inicial, depois foi colocado novamente e fala-se muito do que aconteceu ou não. E uma das grandes razões para entrevistarmos o Ronaldo era também para falarmos do que se tinha passado na final do Mundial.
Ele estava lesionado, não treinou nesse dia e aproveitámos para falar com os outros jogadores, o Zanetti, Taribo West, Djorkaeff, Simeone, Paulo Sousa, Roberto Baggio, Zamorano, eles tinham uma super-equipa nessa altura e eu tive oportunidade de os entrevistar a todos na sexta-feira. Mas faltava o Ronaldo, que era o objectivo principal.
No sábado, continuámos a pressionar a directora de comunicação do Inter e ela disse-me que nesse dia sem falta íamos falar com ele. E era dia de jogo, com a Juventus. Obviamente que íamos ao jogo à noite e tentámos que a entrevista acontecesse durante o dia. Esperámos, esperámos, pressionámos, entretanto fomos fazer uma entrevista com o médico do Inter, mas Ronaldo não havia sinal dele.
Fomos ao jogo à noite, foi a primeira vez que vi o Zinedine Zidane jogar ao vivo, nunca mais me hei-de esquecer, foi o jogador que me impressionou mais ao vivo até ao momento. A bola ficava colada ao pé dele, ninguém lhe conseguia tirar a bola, era como ver um ballet.
O jogo acabou 0-0, fomos jantar com a directora de comunicação e mais malta do Inter, mais uma vez a pressioná-la, lembrando que íamos embora na segunda-feira e tínhamos que falar com o Ronaldo, ao que ela respondeu para não nos preocuparmos, estava garantido.
Chegamos a domingo, novamente pressão a campo inteiro, mas desaparece a directora de comunicação, desaparece o Ronaldo e nós começamos a entrar um bocado em pânico. Fizemos o investimento de uma viagem de Atlanta para Milão e teríamos de voltar com a entrevista do Ronaldo, era impensável isso não acontecer. Estivemos o dia todo a montar as outras entrevistas, a preparar o resto do conteúdo, mas precisávamos do Ronaldo.
Entretanto, na segunda-feira, o nosso operador de câmara já tinha outro trabalho marcado, era freelancer e tinha de ir embora. Depois de ele partir, recebemos uma chamada a dizer que o Ronaldo estava a fazer tratamento e tínhamos de fazer a entrevista agora, ou já não o apanhávamos. Nós tínhamos voo três horas mais tarde, mas pegámos no carro. Tínhamos uma pequena câmara que trouxemos de Atlanta para emergência, esperámos que ele acabasse o tratamento e lá apareceu o Ronaldo.
Falámos com ele dez, quinze minutos, foi uma entrevista um bocado caótica, mas ele foi impecável, aliás, ele é uma pessoa fantástica, simpática e prestável. Fizemos ali uma entrevista com o melhor do mundo nessa altura, com uma minicam, um microfone que também não era o melhor. E basicamente conseguimos chegar ao aeroporto mesmo no limite para apanharmos o voo de regresso.
Foi a minha primeira grande entrevista e grande experiência em lidar com um jogador estrela, clubes de uma magnitude mundial, e perceber o caos que às vezes é lidar com esta gente e tentar marcar coisas e fazer com que elas aconteçam. Mas foi o meu primeiro cromo para a minha grande caderneta de entrevistas com mega-estrelas.
Sobre a final do Mundial, ele nunca explicou bem o que aconteceu. O que me disse foi que se sentiu muito mal na véspera do jogo, foi levado de ambulância para o hospital e no dia do jogo não se sentia bem ainda. Mas não equacionava perder a final, portanto pediu muito ao Zagallo para o colocar no onze.


Tem a CNN, UEFA e FIFA no currículo, ocupando actualmente o cargo de Director não-operacional da Eleven Sports, que entre vários conteúdos possui os direitos da Champions League para Portugal. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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