Pedro Pedrosa

Quando falo de futebol aviso logo que sou doente. Por dois motivos:
– Primeiro, conheço os plantéis todos da primeira divisão portuguesa de futebol, treinadores, jogadores e os seus históricos, grande parte dos plantéis da segunda divisão e alguns do campeonato de Portugal.
– Segundo, venho de uma família onde o portismo é uma doença.
Só para contextualizar, nasci no Porto em 1987, o ano do calcanhar de Viena. Sou portista de educação e de nascença. O meu bisavô Augusto Hermenegildo (do lado da minha mãe) já ia à bola apoiar o Porto ao estádio do Lima. O meu avô Norberto ia com ele, era um senhor muito sério, tão sério que, quando passava a passadeira no vermelho, era menino para o ir dizer à esquadra. Já no estádio, o árbitro era sempre gatuno e os nossos corriam sempre pouco. Um dia até disse que não perdoava ao Mourinho a fraca preparação da equipa, tínhamos perdido em casa contra o Real Madrid, meses mais tarde estávamos nos Aliados a festejar a Champions… O meu avô era irmão do meu tio Zé, um senhor padre que terminava as missas mais cedo para poder ver os jogos da Champions. Eram irmãos da minha tia Margarida, uma professora de matemática que se vestia de azul e branco sempre que o Porto jogava e que tinha as paredes do quarto pintadas de azul. Dos oito irmãos da minha mãe, cinco jogaram basquetebol no Porto. Um dos que não jogou é o meu padrinho, mas nem por isso é o menos doente. Recordo-me de uma final da taça com o Sporting, quando eu estava no escritório a estudar geografia com o meu avô Norberto à hora do jogo (que suplício) e ouço um berro estridente do meu padrinho. Em condições normais seria de alguém que estaria a ser vítima de tortura, mas não, era mais um golo do Jardel a cruzamento do Rubens Júnior… Dos dezasseis primos que tenho, quinze são portistas doentes e um acompanhou a equipa para todo o lado durante dois anos.
O avô do lado do meu pai também ia à bola e o meu pai, que é o meu maior orgulho, jogou futebol nos juvenis do Porto! O meu irmão e eu jogámos andebol no Porto e até ganhamos uma taça de Portugal (nos juniores), mas o meu pai jogou à bola! O andebol do Porto foi uma óptima escola de vida, acima de tudo porque fiz muitas amizades, inclusivamente com jogadores do Benfica com quem ainda hoje mantenho contacto. O futebol não pode ser violência. Sou amigo de malta de todos os clubes e até casei com uma sportinguista!
Deixei a minha mãe para o fim. A história que quero contar é sobre o dia em que a minha mãe me mostrou que era a maior portista que conheço. Estávamos no dia 23 de Maio de 2003 (diria que foi um dos dias mais felizes na minha vida, arriscando dormir no sofá). O Porto jogava em Sevilha com o Celtic e a minha mãe escolheu não ver o jogo, certamente para não ficar sem unhas. Foi um dia especial, sentia-se uma electricidade no ar e não era por a máquina do ar condicionado estar avariada. Eu fui para casa do tio Zé porque me dava sorte. Apareceu o meu primo Manel, um dos 14 primos doentes pelo Porto, porque dizia que aquela casa lhe dava sorte. Lembro-me que nesse dia vesti uma camisa, talvez por saber que ia ser um dia de festa… Foi um jogo difícil, épico mesmo. Golo nosso, golo deles, golo nosso, golo deles. Deu em prolongamento. Foi aí que todos os portistas se viram na ponta da chuteira do Derlei com aquele remate com selo de golo que bateu na perna do Mjalby e só parou no fundo das redes… Nesse momento, peguei o meu tio ao colo, um senhor que na altura pesaria 120 kg. O meu primo exclamava “ele está a pegar colo no tio Zé”. Foi mágico, até ganhei força! Uma loucura! Todos nós corremos com o Mourinho na linha lateral em direcção aos nossos. Que festão! Às quatro da manhã eu estava no Aeroporto Sá Carneiro à espera dos nossos heróis. Nesse momento, vi a imagem mais linda de todas, as pessoas batiam palmas de uma forma ritmada à espera que a taça saísse pela porta. Quando saiu nas mãos do Jankauskas, senti-me uma miúda a ver o Justin Bieber tal foi o berro que dei. Foi no dia seguinte que a minha mãe mostrou ser uma verdadeira portista: não precisei de ir à escola mesmo sem estar doente. A justificação da falta dizia “FINAL DE SEVILHA”. #somosporto


Comediante, participou no filme “Balas e Bolinhos 3″, teve uma rubrica chamada “Abominável Monstro” no Porto Canal e actualmente integra um grupo de comediantes chamado “Indevida Comédia”.

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