Pedro Henriques

A minha saída do Benfica, à partida, não seria para ir para o FC Porto. Eu rescindi contrato para ir para Inglaterra, abdico do ano que tenho de contrato, ficou lá o dinheiro e eu fiquei de decidir a minha vida. A ideia era ir para Inglaterra e fui para Inglaterra, estava em Portsmouth quando o meu empresário me telefonou. Estava lá com o filho dele, mais o advogado e uma série de gente, quando apanhei o avião para assinar pelo FC Porto.
Vim-me embora, no dia a seguir fui logo para o Porto e ao chegarmos lá acima à sala do presidente, ele, com o sorriso dele, disse: “Tenho aqui umas lembranças”. Além de uma medalha do FC Porto, aquelas coisas que fazem parte da praxe, traz também duas almofadas, daquelas almofadas da bola, do Benfica! E depois contou a história, que o fornecedor tinha-se enganado nas encomendas e entregaram almofadas do Benfica nas Antas. “Então ofereço almofadas do Benfica para as pessoas se sentarem”.
Foi engraçado o pormenor de o presidente Pinto da Costa ter essa capacidade de brincar. Aquilo podia ter sido quase um problema de Estado, mas não. Acredito que não as tenha pago, obviamente, mas terá dito ao fornecedor que aquelas ficavam ali de castigo.
É um episódio engraçado que me aconteceu numa altura em que normalmente há algum nervosismo e ele ao brincar com isto aligeirou toda a pressão daquele momento. Há detalhes que me podem escapar, isto já foi há muito tempo, mas no essencial esta é a história do momento em que assino pelo FC Porto.
Fui para Inglaterra, a ideia era assinar pelo Portsmouth, na altura não estava na Premier League, estava na segunda liga inglesa, mas tinha uma capacidade financeira enorme. Ia ganhar bem mais do que ganhava no Benfica e ganharia mais do que fiquei a ganhar no FC Porto. A questão financeira já nessa altura fazia diferença e continua a fazer, tanto é que tens o caso do Ruben Neves que sai do FC Porto e é comprado por uma equipa da segunda liga, que acabou por subir.
Só que na altura, acontecia com a maior parte dos jogadores excepto as grandes estrelas, os jogadores que iam para Inglaterra tinham de treinar. Também apanhavam barretes, mas não se fazia como nós cá, que se viam uns vídeos e os jogadores assinavam. Em Inglaterra tinhas de prestar provas. Foi nesse período em que me telefonaram a falar do interesse do FC Porto.
Supostamente, a justificação que o meu empresário me deu foi que, ao saber que eu estava livre, o presidente do FC Porto, por apreciar as minhas qualidades, achou que era uma boa oportunidade para me contratar. Depois desportivamente acabou por não correr bem porque não tive qualquer possibilidade de jogar. Foi assim que aconteceu a minha transferência.
À partida não seria para ir para o FC Porto, não foi aquele percurso que havia na altura em que fizeram a tal regra em que os jogadores tinham de ir lá fora para voltar para dentro, não foi essa a questão porque eu estava livre. Era para ir para Inglaterra, mas depois surgiu a oportunidade muito melhor do FC Porto e obviamente que não ia para Inglaterra só porque ia ganhar mais.
Ainda antes do Portsmouth também tive a possibilidade do Arsenal. Foi logo quando rescindi, estive lá uma semana. O agente que me levou lá tinha contactos com o clube, era o agente do Anelka, na altura em que ele ainda estava lá. Também estava lá o Boa Morte. Cheguei a estar em casa ao Arsène Wenger, foi uma história gira também. Encontrei lá um jogador que tinha sido meu colega no Benfica, o holandês Glenn Helder, estivemos juntos no hotel do centro de treinos do Arsenal e foi engraçada essa semana. Depois acabou por não se concretizar.
Supostamente, e isto é sempre supostamente porque no futebol nunca é fácil saber quem é que está a contar a história verdadeira, a justificação que o empresário me deu foi que eles não queriam decidir logo, iam demorar algum tempo a decidir. Voltei para Portugal, a caravana continua a circular, e depois de assinar pelo FC Porto, estava no hotel, estive um mês no hotel até encontrar casa, e encontrei lá um scout que tinha conhecido quando estive aquela semana no Arsenal. Começámos a falar, não sabia de onde o conhecia e lá chegámos à conclusão de onde era, e ele disse: “foi pena. O teu empresário queria resolver aquilo rapidamente naquele dia e o Arsenal precisava de algum tempo para pensar”. Um disse uma coisa, outro disse outra, mas também não era importante. Expliquei-lhe onde estava, o que tinha acontecido, e foi mais uma história engraçada no futebol.


Antigo lateral esquerdo de Benfica, Vitória de Setúbal, Belenenses, Santa Clara e Académica, destaca-se hoje como comentador da Sport TV.

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