Pedro Górgia

Durante o Euro 2000 a extinta Praça Sony, no Parque das Nações, transformou-se no Estádio das Nações. Um grande écran transmitiu grande parte dos jogos desse Europeu e, obviamente, todos os jogos da nossa Selecção. Bares e música compunham a festa que acontecia sempre, fosse qual fosse o resultado do jogo. Nesse Verão – e dois anos depois da Expo 98 – aquela zona da cidade foi local de romaria para os amantes de futebol e não só. É que um grande evento desportivo como é um Europeu ou um Mundial de futebol tem o condão de atrair para as emoções do jogo até mesmo aquelas pessoas que pouco sabem das regras do desporto-rei.

O local enchia-se de gente a cada jornada e nesse dia a enchente era ainda maior porque Portugal estreava-se no Europeu, frente à Inglaterra. Daí a grande dificuldade que tive a estacionar o meu carro, que vinha cheio de família e amigos, cheios de esperança de assistir a um bom começo de Portugal.

Nessa altura já eu tinha um trajecto de alguns anos em televisão – penso até que o primeiro “Jardins Proibidos” estava no ar por esses dias – e acabava por ser bastante reconhecido na rua. Num lugar como aquele ainda mais interpelado fui. Mas sempre de forma simpática! Ofereciam-me cerveja, beijos e abraços. A cerveja, aceitava sempre… Enfim, o ambiente era de festa e o jogo correu-nos de feição, como todos se devem lembrar. Para os mais esquecidos ou que nasceram depois desse jogo épico, lembro que ganhámos por 3-2.

À saída foi a grande confusão, mas lá conseguimos chegar ao meu carro. O pessoal que vinha comigo já estava instalado quando, no momento em que eu ia a entrar, pára um Mercedes cabriolet mesmo ao meu lado. Vinha com a capota levantada e cheio de jovens divertidos e em festa. Olharam para mim e reconheceram-me de imediato.

- Olha! É aquele tipo da televisão!

Pensei que me iam oferecer uma cerveja, mas em vez disso olharam para o carro onde eu estava prestes a entrar e dispararam:

- E anda nessa lata velha!

E, rindo, arrancaram a grande velocidade.

Foi quando descobri que no imaginário do espectador qualquer pessoa que aparece na televisão vive num casarão com piscina e anda em grandes bólides. Eu vivia num pequeno T1 e estava prestes a entrar num Peugeot 106 em segunda mão. Mas era meu!


Começou a carreira de actor em 1991, no Teatro de Carnide, chegando à televisão quatro anos depois. Actualmente volta a encarnar Xico Pastor, no regresso de Jardins Proibidos.

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Um comentário sobre “Pedro Górgia

  1. A vida artística é sempre incerta e quem conhece algumas pessoas do meio sabe pelas dificuldades que muitos passam. Ser uma boa atriz ou ator, não implica riqueza, pelo contrário, imlpica um trabalho constante de crescimento e reconhecimento profissional, contratos…muitos efectivos mas a maioria a recibos verdes e como é óbvio os mesmos atores não podem entrar constantemente nas mesma produções para não haver uma saturação do espectador, cujo gosto e exigência garante as audiências das estações televisivas.

    Também o facto de a pessoa ter de lidar com teorias pré-concebidas sobre como deve viver, o que será que faz, o que será que pensa…..quando na verdade são pessoas como as outras, com a desvantagem de não poderem se resguardar mais e terem de dar satisfações por tudo e mais alguma coisa. Admiro quem exerce este ofício. Penso que eu não seria capaz, não por desgostar mas pelo horror de ver o meu nome numa revista de cada vez que cortasse o cabelo, engordasse, emagrecesse, engravidasse etc etc etc até porque as teorias seriam certamente descabidas e apenas um motor de alimento à curiosidade pública…..Parabéns a todos os artistas portugueses!

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