Pedro Boucherie Mendes

Gosto de futebol limpo, sem casos, bem jogado. Detesto a ideia de ganhar no último minuto com um golo com a mão. Não sou nem santo nem a melhor pessoa do mundo, mas tenho um problema com fanatismo e intolerância (que não é mesma coisa que fanatismo como estratégia de persuasão) e com a violação das regras aceites pelas duas partes. No nosso país não gostamos de futebol, mas sim que o nosso clube ganhe e que o outro perca e achamos que somos muito engraçados quando até preferimos ganhar ilegalmente. Não somos. Somos é pouco educados e maduros e isso entristece-me. Quero que o meu Sporting ganhe? Evidente. Mas que ganhe limpo, sem espinhas, sem peles, sem nada que não seja a superioridade dentro do campo e a força das equipas, onde incluo treinadores, médicos e dirigentes, cada qual com as suas competências.
Por estas e por outras não gosto de ir ao estádio. Chateia-me o tipo do lado a fumar cigarrilha e a protestar com o árbitro assistente, irrita-me que clamem penalty para o nosso lado e que num lance parecido fiquem calados como ratos, aborrece-me que assobiem jogadores só porque estão a fazer o seu trabalho. E como sou dado ao conforto, também não me apetece perder uma hora no trânsito. Enfim, cada um é como cada qual e eu não gozo com amigos quando perdem, excepto se forem doidinhos conspirativos que acham que o seu clube perdeu porque algures a mãe de um árbitro foi a Fátima com a cunhada de um treinador adjunto que já nem sequer está no clube mas que mantém relações, e aí congeminou tudo, enquanto petiscavam num parque de merendas.
Dos milhares e milhares que afirmam ter estado no Estádio José de Alvalade em Dezembro de 1986, quando o Sporting ganhou sete a um ao Benfica, eu fui um dos que esteve mesmo. Até hoje foi o único derby que vi ao vivo. Evito derbies por causa da violência e sobretudo por causa do fanatismo e da confusão e também porque são jogos que se vêem melhor em casa.
Nesse dia estava com o meu irmão na central e chovia a potes. O futebol ao vivo nessa altura era muito desconfortável. Foi uma bela primeira parte, com um dois a um para o nosso lado ao intervalo a deixar a malta contente. O pior veio na segunda parte, em que perdi a conta aos golos. Lembro-me perfeitamente de estar mais preocupado em saber quanto estava – e perguntava às pessoas em redor – que a ver o jogo. E quando olhava para o relvado, lá estava o Manuel Fernandes a meter mais um. Lembro-me como se fosse hoje e (em contradição com o que disse acima) que aquela segunda parte foi um festejo permanente, como se fosse golo durante os 45 minutos e nunca parássemos de berrar e saltar.
No final, e como os jogadores do Benfica, eu pouco tinha percebido acerca do que se passara ali, mas não recordo falta de fair-play nem da nossa parte nem do lado dos derrotados.
Aquela vitória do meu Sporting foi histórica mas também confusa. Só mais tarde nesse dia, quando a RTP decidiu emitir o jogo em diferido, pude perceber como as coisas nos tinham corrido bem e mal aos benfiquistas, que terão poucos motivos para querer recordar o jogo.
Em nenhuma altura – nem hoje – senti que tivéssemos humilhado o Benfica, porque não me revejo nessa dimensão idiota do jogo. Ganhámos e ponto final. Ganhámos por tantos que não houve mais conversa.
Eu ter perdido a conta aos golos é a minha parte desta história.


Jornalista, começou por trabalhar em rádio e imprensa e é director dos canais temáticos da SIC desde 2007. Actualmente também modera o programa Irritações, na SIC Radical.

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2 comentários sobre “Pedro Boucherie Mendes

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