Pedro Abrunhosa

Creio que toda a gente que me conhece sabe que não sou um grande, nem grande nem pequeno, especialista em futebol. Sou tudo menos um treinador de bancada, não percebo nada de futebol. Nunca dei grande importância ao futebol, mas quando era miúdo jogava até razoavelmente bem. O meu pai esteve ligado à Académica de Coimbra, porque estudava lá, e tenho um certo afecto pela Académica, onde o meu pai jogou enquanto estudante. De resto, na minha relação de infância com o futebol não havia mais nada, a não ser de vez em quando o meu pai dizer os resultados da Académica.

Sou do Porto, claro que simpatizo com o Futebol Clube do Porto, é o mais emblemático da minha cidade, mas não sou propriamente um adepto. Devo dizer que, evidentemente, quando o Porto ganha fico contente. Mas a minha relação com o futebol é nula, no sentido que sei quem está à frente porque aparece a meio das notícias, entre atentados terroristas e uma comunicação inútil do Presidente da República.

Então nunca tinha ido ao futebol, não tenho memórias de estádios, a não ser quando toco neles. Mas aí estou no palco e aquilo tudo é uma periferia de gente, estou habituado a ver os estádios cheios do ponto de vista da cena. E um dia recebi uma chamada do Presidente do Futebol Clube do Porto, com quem não tenho propriamente uma relação pessoal, mas damo-nos bem, cordialmente, como duas figuras da cidade, cada qual representando coisas diferentes. E tenho o maior orgulho que o clube seja um embaixador da cidade e do país, assim como quando outros clubes representam Portugal nas competições europeias.

De resto, se calhar uma das razões do meu afastamento do futebol é o que o clubismo faz, que é uma certa desunião, um “desamor”, as pessoas confundirem as cidades com os clubes é uma coisa que me aborrece. A música faz o contrário, é igual em todo o lado, sou amado e detestado em todo o sítio, até na minha própria cidade, é transversal nessa capacidade de união. Andamos pelo país inteiro a soldar muitas das fissuras que são feitas pelo próprio futebol.

Dito isto, o Pinto da Costa ligou-me para ir à final da Taça UEFA, em Sevilha, contra o Celtic de Glasgow. Existia um avião especial que ia com uma comitiva, da qual eu faria parte, e então fui pela primeira vez ao futebol. E integrei pela primeira vez uma comitiva, fosse do que fosse. Nunca julguei fazer parte de uma comitiva que me aceitasse como membro, como dizia o nosso amigo Groucho Marx.

Lá fui. Cheguei a Sevilha e não sabia para que lado me havia de virar, porque tínhamos uns autocarros que nos levavam até ao estádio, tudo aquilo para mim era novo… No estádio tivemos uma recepção com marisco, peru, coxas de frango, morangos, espumante. Aquilo era numa zona envidraçada e ao fundo lá estava o relvado, que parecia muito pequenino dali. Mais pequenino me pareceu quando, já nos lugares para onde fomos, o jogo começou. Os jogadores entraram e sinceramente eu vejo bem, não é dos óculos escuros, tinha dificuldade em distinguir aquilo tudo. Sabia que o Porto jogava de azul e branco; o problema era perceber onde estava a bola, e passei 120 minutos sem nunca chegar a perceber. Nem nos lances de bola parada. Sabia que ela estava parada, mas não a via. Via-os todos a correr numa direcção, mas sinceramente não me apercebia das jogadas. E quando foram os golos, o Porto ganhou 3-2, ao meu lado estava o Miguel Sousa Tavares, como eu acho que se deve estar nos estádios, quem é aficionado, com o cachecol do Porto na cabeça, e ele ia-me explicando o jogo.

Não entendi nada do que se estava a passar, talvez por falta de elementos. Muita gente nunca foi ouvir Wagner, e quando vai, embora Wagner seja muito alto e melódico, há pessoas que não conseguem ouvir aquilo, não percebem. Ali foi uma questão cultural, de certeza um problema meu, não consegui ver uma única vez a bola, nem quando jogavam perto de nós, aquilo era tudo muito rápido. Ainda por cima deu uma trabalheira enorme, tivemos de apanhar aviões, transfers… Quando eu tenho em casa tudo isso, com lareira e pés no puf, tenho um realizador de TV e os operadores de câmara em cima da bola. O meu grande mistério é como é que eles sabem onde está a bola.

Depois desta experiência de não-espectáculo, o Porto ganhou e fomos todos para o aeroporto logo a seguir, nos autocarros escoltados, onde tínhamos o avião da comitiva. Só que, como ganharam a taça, o avião partiu sem nós, porque tinha de chegar com a equipa ao Porto. Estávamos num hangar à parte, para não se cruzarem as claques, que não tinha condições, era um sítio onde se armazenavam aviões, isto porque não era suposto acontecer o que aconteceu. A “comitiva VIP” foi completamente abandonada à sua sorte, sem água, sem comida, sem lavabos, e entretanto iam chegando as claques do Porto, que iam embarcando nos seus próprios aviões fretados, todos cheios. Ficámos todos em terra: Presidente da Câmara do Porto, um ex-Presidente da Assembleia da República, alguns empresários da cidade, sem local onde nos sentarmos, era um cais de carga. Estivemos ali desde as dez da noite do dia do desafio, até às nove da manhã do dia seguinte, sem as menores condições, com toda a gente a invectivar o Presidente que tinha fugido no avião, literalmente. Veio entregar a taça à cidade e fez bem. Não devia era ter deixado os seus convidados. Isto na altura não foi falado mas foi muito incómodo. Quem esteve era convidado e obviamente não quis estar a fazer grande onda, apesar de se terem passado uns graves erros protocolares.

A minha experiência no estádio não foi grande coisa. Gosto de ver grandes desafios nacionais e europeus, principalmente do futebol inglês e do espanhol, mas continuarei a vê-los na televisão, com uma garrafa de Ginger Ale. E ao menos o realizador sabe onde está a bola.


Abanou o país em 1994, com os vários singles do álbum Viagens e desde então nunca deixou de ser uma das principais e mais reconhecidas figuras da música nacional.

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