Paulo Azevedo

Quando acabei o curso de treinador depois mandei alguns e-mails para ir estagiar em clubes. Fui dar uma palestra à Academia do Sporting, outra à Dragon Force, do Porto, e na altura eu tinha feito uma reportagem para a SportTV e o director tinha o e-mail do Mourinho. Mandei um e-mail para ele, que depois reencaminhou para o Mourinho, que na altura estava no Real Madrid. Foi em 2011, quando foram campeões.
Quem me recebeu lá foi o Eládio Paramés, que era assessor dele. Pensei que ia para a bancada assistir aos treinos mas não, apareceu-me o mister de frente e recebeu-me extremamente bem. O momento que teve mais impacto foi num dia em que ele reuniu a equipa no anfiteatro e eu estava com o Rui Faria, a aprender, e há uma altura em que ele chama os adjuntos todos e eu fui com eles. Nunca lhe tinha falado da minha reportagem na SportTV e ele dá a táctica, fala com os jogadores e depois vira-se para eles e diz assim: “Agora queria que vocês perdessem três minutos das vossas vidas e amassem metade o futebol do que esta pessoa ama”. E passa um excerto da minha reportagem sem som, que acaba comigo a marcar um chapéu a um guarda-redes e o Ronaldo levantou-se e disse “Eia, que ‘granda’ golo!” Depois ele mandou-me levantar e disse-me, agora são teus. E foi a partir daí que eu também me especializei em motivação de plantel, com as palestras. Estive ali um momento em que não sabia o que havia de dizer, com aqueles craques todos à minha frente.
Depois levou-me também a assistir a uma conferência de imprensa, foi aí que me senti totalmente integrado. Num sábado à tarde fomos ver o jogo do filho dele e perguntou-me como é que eu conduzia. Então em vez de ir no carro dele, com o Faria e o resto do pessoal, veio no meu atrás. Também tinha vidros escuros e ele dizia: “fogo, pareces o Colin McRae”.
No primeiro dia ele perguntou-me se tinha algum agente e eu respondi que tinha uma vez mandado um e-mail ao Jorge Mendes. “Então e ele não te respondeu?” Disse-lhe que não, era normal, “então, tem tanto trabalho”. Nunca mais tocou nesse assunto. No meu último dia de estágio ele disse-me, “olha, agora vais para um sítio onde eu nunca estive, nem o meu filho, lá em cima no Palco d’Honor”. Respondi que se eles nunca lá tinham estado, também não queria ir para lá. E ele, “não, não, vais para perceber como é que é isto tudo”.
Fui muito bem recebido, era a tribuna de honra. Cheguei num Q7 branco a dizer Real Madrid, com o motorista do presidente, que me dizia, “olha, aquele é do gás natural, aquele é do petróleo”. E depois eu percebi por que é que ele me mandou para lá. Quando me vou a sentar, olha para a cadeira ao meu lado e leio “Jorge Mendes”. E ele para se sentar teve de passar por mim. Quando me viu disse logo: “Então, o que é que estás aqui a fazer?” E eu expliquei que estava a estagiar ali com o mister. “Então dá-me o teu contacto, para depois falarmos”. Pensei que o Mourinho no primeiro dia tinha perguntado aquilo por perguntar e no último dia, para se sentar, o Jorge Mendes tinha de ver-me à força. São pormenores giros nele.
Fui muito bem recebido lá. Depois trouxe tudo: fatos de treino, cadernos, o Silvino dava-me tudo. Eram todos impecáveis: o Silvino, Rui Faria, o Karanka também. E pelo mister. Passei lá o aniversário dele, tive a sorte de estar lá naquele jogo com o Barcelona em que ficaram pela primeira vez a dez pontos.
Depois daquela apresentação que ele me fez tinha uma relação mais próxima com os jogadores, almoçava com eles, em vez de treinarem e irem para casa ele instituiu que almoçávamos todos juntos. Foram dois micro-ciclos, uma semana antes do jogo e uma semana depois. Em todos os outros clubes onde dei palestras depois, como o Belenenses ou a Académica, eles perguntavam-me qual era a diferença entre eles e o Real Madrid e eu respondia que era o parque de estacionamento. De resto eram iguais, miúdos que gostam de futebol.
Uma das histórias que me marcou mais lá foi a do Casillas. Pouco ou nada falou para mim durante o estágio. E eu achei que era um gajo que não presta. No último dia dei o meu livro à equipa técnica e depois chamei o Casillas, era o capitão, e disse-lhe: “só tenho mais um livro, mas deixas no balneário, se alguém quiser ler”. Ele disse-me para esperar, que vinha já. Deu-me as luvas dele que levantaram a Copa do Mundo pela selecção espanhola, autenticadas, para eu pôr à venda no eBay. Claro que nunca o fiz. Os brasileiros eram mais extrovertidos e ele nunca falou para mim, era mais fechado, como os alemães. Já o Sergio Ramos era extremamente simpático. O Casillas era assim mais fechado, mas depois no fim teve aquela atitude.


Actor e orador motivacional, foi apresentado ao país na reportagem “O melhor jogador do mundo”. Escreveu o livro “Uma Vida Normal”, venceu o concurso “Splash!” e apresenta o “Consigo”, na RTP2.

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