Nuno Pinto

Quando fui para a Ucrânia, acertei as coisas com o Tavriya Simferopol na pré-época e eles estavam na Turquia, em Antalya. Assinei o contrato, comecei a treinar, tudo bem, e faltava uma semana e meia para começar o campeonato. O primeiro jogo era contra o Dínamo de Kiev, jogava lá o Miguel Veloso.
Chegamos à Ucrânia e o aeroporto estava fechado, havia uma data de tropas com metralhadoras, só lhes víamos os olhos, e comecei logo a pensar: mas vim jogar futebol ou vim para a guerra? Isto não está bem.
O que é certo é que fomos para o centro de estágio do clube e começámos a treinar normalmente. Ouvíamos as notícias de que aquilo estava complicado naquela zona, na Crimeia, mas estávamos a fazer a nossa vida normal lá no centro de estágio, tanto eu como o David Caiado, que estava comigo no mesmo clube.
Faltavam dois ou três dias para o jogo, estávamos a fazer um jogo-treino contra uma equipa qualquer, e ouvi o treinador, que era búlgaro, para o adjunto:
– Se calhar é melhor acabar com o treino e irmos para o centro de estágio. Vamos embora que isto aqui não está bem.
Passado uns minutos:
– Não, está tudo ok. Aqui não se passa nada. Estamos protegidos no centro de estágio.
Acabou o jogo, estávamos a tomar banho e começa o treinador-adjunto a bater nas portas.
– É despachar, peguem só nas coisas mais essenciais. Temos de ir embora que vai rebentar uma guerra!
Nem queria acreditar naquilo.
– Ó Caiado! Embora, mano!
Arrumámos as coisas e tínhamos algum dinheiro connosco do prémio de assinatura. O Caiado a querer juntar o dinheiro e eu:
– Ó Caiado, caga para o dinheiro! Vamos mas é embora! Ainda levamos um tiro na cabeça, para que é que queres o dinheiro?
Peguei nos bens essenciais e fomos para o autocarro. O treinador só nos apressava e dizia:
– Vamos embora que isto a qualquer momento rebenta!
Íamos no autocarro, cansados, queríamos ir para a frente mas parecia que o autocarro andava era para trás. Fomos de autocarro até Donetsk, mas, entretanto, a meio, tínhamos a fronteira da Crimeia cheia de soldados iguais aos que estavam no aeroporto. Só se viam os olhos, armas, tanques na estrada….
Parámos, mostrámos os passaportes e o condutor:
– Esta equipa é da Rússia, não te preocupes.
O gajo olhou.
– São russos? Então embora.
O gajo lá nos deixou passar.
Entretanto ficávamos sem rede, ainda falei com a minha mulher, não quis preocupá-la e foi abaixo, depois a Judite de Sousa ligou para mim e para o Caiado, entrei em directo na TVI, tudo aquilo foi demais.
Depois ficámos no centro de estágio do Shakhtar Donetsk e fomos outra vez para a Turquia, para mais uma pré-época porque, como a situação estava, o campeonato não ia começar.
O clube tinha um avião privado, mas como o aeroporto estava fechado não era possível viajar e íamos de autocarro para todos os jogos fora. Havia viagens de 12 horas! Sempre que passávamos a fronteira da Crimeira tínhamos os soldados russos, mostrávamos os passaportes, andávamos 50 metros e tínhamos os soldados ucranianos. Eram 50 metros e estavam ali a apontar uns para os outros.
Uma vez o nosso treinador esqueceu-se do passaporte, não o deixaram passar, e eu e o Caiado tirámos fotografias lá com os soldados. Virei-me para um e disse-lhe:
– Ouve lá, deixa-me dar um tiro para o ar.
E ele:
– Tu és maluco! Dás um tiro para o ar e isto rebenta já aqui tudo!
Eu e o Caiado, felizmente, somos gajos positivos se não dávamos em malucos. Agora parece que não foi assim tão grave, mas na altura foi complicado. Uma coisa é estar agora a contar, outra é fazer aquelas viagens de autocarro naquele ambiente. Mas já passou!


A Ucrânia foi uma das experiências do lateral esquerdo do Vitória de Setúbal no estrangeiro, juntamente com as passagens pela Bulgária (Levski de Sófia) e pela Roménia (Astra Giurgiu). Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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