Nuno Gonçalves

Há uma história muito engraçada que se passou no último Europeu, no segundo jogo, que Portugal empatou a zero com a Áustria. Estava um menino ao nosso lado, filho de emigrantes, que começou a chorar a quinze minutos do final. Diziam que Portugal tinha de ganhar e aquilo não estava a dar. O menino a chorar, a chorar, eu olhava para ele, aquilo incomodava-me imenso, e o pai estava até com um bocadinho de vergonha.
Entretanto há um penalty a favor de Portugal, na nossa baliza, nós estávamos mesmo atrás da baliza. E o miúdo pronto, era agora, vamos marcar e acabou-se o sofrimento. O Ronaldo falha o penalty e o menino coitado, então aí é que acabou, começou a soluçar, aquilo era o fim do mundo. E o jogo acabou. Desgraceira total, Portugal nunca vai ganhar nada.
E eu recordo que a primeira memória que tenho com a selecção, devia ter a idade do miúdo, uns seis, sete anos, Portugal estava a jogar contra a França, num Europeu também em França, em 1984, e eu também me fartei de chorar quando Portugal perdeu. Sabia perfeitamente o que era aquela sensação que o miúdo estava a ter.
O miúdo está a sair do estádio e eu começo a correr atrás dele, tinha de lhe dizer qualquer coisa. Por superstição estava a usar dois casacos da selecção, um tinha comprado na África do Sul e o outro acho que na Ucrânia, estava a dar muito boa sorte aquilo. Despi um, o vermelho, e disse-lhe: “Olha, vais vestir este casaco e vais vesti-lo na final, porque eu sei que Portugal vai à final e vamos ser campeões.”
O miúdo começou a olhar para mim, a limpar as lágrimas, eu devia estar a falar com um ar mesmo convencido do que estava a dizer, que ele só me respondeu “Está bem.” E pegou no casaco e vestiu-o. O pai no início até ficou um bocado a gozar, “Então não vamos…”, e eu disse-lhe para não ligar ao que o pai estava a dizer, era entre nós, e pedi-lhe para me prometer que ia usar o casaco no dia da final e íamos ser campeões.
E não faço a mínima ideia de quem é o miúdo, onde é que ele está e se usou o casaco no dia da final ou não. Gostava muito de o conhecer, em mim teve um lado terapêutico de enterrar uma mágoa que eu também já tinha vivido. Por outro lado pensei, “Ai Jesus o que é que tu fizeste agora, foste dar esperanças ao miúdo.” Mas de alguma maneira acreditava que podia ter sido ali um enterrar do fado, do chorar e do negativo, e o pai com vergonha, aquela ideia do “nunca ganhamos nada”.
Vejo isto como uma história importantíssima e foi das primeiras pessoas que me lembrei quando ganhámos o jogo, onde é que estaria aquele miúdo e se tinha pensado “Como é que aquele gajo soube disto?”


Compositor e teclista dos The Gift, com quem irá subir aos palcos dos Coliseus do Porto e Lisboa, a 2 e 3 de Março, para apresentar “Altar”, o mais recente álbum da banda de Alcobaça.

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