Nuno Gomes

A minha passagem pela Fiorentina teve um pouco de tudo. Os primeiros tempos foram complicados logo pela dificuldade para encontrar uma casa. Os clubes têm sempre algumas casas identificadas para alugar para os jogadores, mas não gostava de nenhuma das que via, eram sempre muito velhas, e passei os primeiros meses a viver em hotéis. Mas nem isso foi fácil. Passei por três hotéis nos primeiros meses! Havia sempre qualquer coisa, como terem já os quartos reservados a partir de certa data e lá tinha de procurar outro.
A dada altura já era eu que estava a procurar casa sem a ajuda do clube. Conheci um agente imobiliário que me ajudou e finalmente encontrei uma casa. Mas também só lá ficámos uns meses. Era um prédio de três andares, numa zona calma, um condomínio fechado e tínhamos um jardim comum com os outros vizinhos, com umas mesas de pedra.
Um dia, estava a preparar-me para ir para o treino, e encontraram um cadáver no jardim! Lembro-me de ir à janela e ver um grande aparato, com a polícia à volta do corpo tapado por um lençol. Estava lá com a família, foi uma situação que me deixou incomodado. Passado um tempo fomos assaltados e não nos sentíamos seguros ali.
Morávamos no terceiro andar e tínhamos um elevador, que precisava de uma chave para o podermos utilizar, e assim que chegava ao nosso andar entrávamos para dentro da sala. E havia também uma escada exterior. Uma vez chego a casa, vinha do treino, e tinha a porta aberta. Levaram-me dinheiro, uma colecção de relógios, mais umas coisas e, a partir daí, já não conseguia estar naquela casa. Lembro-me de que dessa vez estava sozinho. Liguei para o clube e pedi para me marcarem um hotel para essa noite. Passei umas noites sem dormir bem e voltei a mudar de casa.
Mas foi uma aventura desde o início. O Rui Costa e a mulher foram muito importantes pelo apoio que nos deram. Facilitaram muito a nossa adaptação à cidade e ao clube. Tal como o Amaral, que tinha sido meu colega de equipa no Benfica.
Fui para Florença depois do Euro’2000. Cheguei, fiz os exames médicos, os testes físicos, e no dia a seguir, de manhã, ia ser apresentado à imprensa. Fui para o hotel e nessa noite ia jantar no restaurante do hotel. Estavam lá o Fatih Terim, que era o treinador, e o Giancarlo Antognoni, o director desportivo, e convidaram-me para jantar com eles.
Começámos a falar da apresentação, no dia seguinte, e que depois à noite ia haver um jogo do torneio de Viareggio, o primeiro jogo da pré-época. A propósito, fui no carro do Rui, fomos ver o jogo, e o Amaral lesionou-se com gravidade. Ficou seis ou oito meses de fora, com uma rotura de ligamentos. Foi dramático para ele. Mas, voltando à conversa sobre a apresentação, eles dizem-me:
– Já temos o número nove para ti.
– Número nove? Mas eu não quero o número nove.
E o Terim:
– Não queres o número nove? Por que é que não queres o número nove?
E o Giancarlo Antognoni a ajudá-lo:
– És um avançado. Um attaccante!
E eu:
– Sempre joguei com o 21. Nunca joguei com o número nove. Não quero o número nove.
Até porque sabia que as notícias que vinham nos jornais falavam no substituto do Batistuta, que tinha ido para a Roma. E também era uma mensagem que queria passar para as pessoas, que não tinha nada a ver com o Batistuta. Ele era aquele jogador com um instinto de predador diferente do meu. Era um jogador mais de área, de finalização mesmo. Embora eu tenha feito muitos golos, saía mais da área. E também sabia o peso que ia ser jogar com o número nove. Mas não foi por isso, foi por mania minha de querer usar o 21. Não me via a jogar com outro número.
E o Terim:
– Mas não podemos mudar isso? Quem é o número 21?
O Antognoni lá mexe no telefone.
– É o Bressan.
– Liga ao Bressan!
O Terim obrigou o Antognoni a ligar ao Bressan e o Bressan disse que não tinha qualquer problema em trocar de número. Lá me cedeu o número 21. Já fui dormir mais descansado e, no dia a seguir, de manhã, lá estava a camisola 21 à minha espera para a apresentação.
O meu primeiro jogo oficial foi para a Taça de Itália, que acabámos por ganhar nesse ano, num jogo fora contra o Salernitana. Ganhámos 5-0 e eu fiz três golos, três assistências do Rui. No Salernitana jogava um defesa central de seu nome Marc Zoro, que depois foi meu colega no Benfica. O que pode explicar os meus três golos…. Estou a brincar! Tanto que ele só jogou a segunda parte e o meu hat-trick foi logo na primeira. E ganhámos a taça com um golo meu, contra o Parma.
Nesse primeiro ano da Fiorentina tenho muitas histórias. O Terim foi-se embora a meio do campeonato. Estávamos a jogar bem e ele era um ídolo. Tinha conquistado os adeptos de uma maneira muito forte. Chamavam-lhe imperador. Ele tem assim um ar de general e conseguia passar para os adeptos. Depois, sem mais nem menos, acaba por sair. Começa a ser cobiçado pelo AC Milan e aí começaram os problemas. Ele deve ter percebido onde se tinha ido meter.
O presidente do clube era uma pessoa muito difícil. Era louco! Para não lhe chamar outra coisa. Era o Cecchi Gori. Ele não estava presente, vivia em Roma porque tinha uma produtora de televisão. Só queria era saber dos filmes e das actrizes, raramente aparecia. Havia um administrador delegado, que era tipo o homem-forte do presidente. Esse é que estava lá. A dada altura começou a atrasar os pagamentos dos salários e o Terim foi-se embora. Atrasavam-se dois ou três meses. Era tarde, mas pagavam, até que houve uma altura, no meu segundo ano, em que deixaram mesmo de pagar. Cheguei a estar sete meses sem receber.
Mas aquele presidente era mesmo louco. Ele tinha casa em Florença. Um duplex no último andar, com vista para o rio Arno. Ele herdou o clube, que era dos pais. Os pais adoravam o clube. Reza a história que os pais se conheceram nas bancadas do estádio quando eram miúdos e iam ver a Fiorentina. Apaixonaram-se, começaram a namorar na bancada do estádio e um dia tomaram conta do clube.
O pai já tinha morrido e a mãe morreu quando estávamos em Florença. Fomos para o funeral e ele chegou duas horas atrasado ao funeral da mãe! Estávamos lá de fatinho, gravata, um calor horrível dentro da igreja, e começou toda a gente a comentar como é que era possível e o que lhe tinha custado ter ido de véspera para Florença. Acontecem imprevistos, mas quando é o funeral de mãe se calhar é melhor evitar que possa acontecer alguma coisa. Ele foi de Roma nesse dia de manhã, apanhou um acidente e cortaram a autoestrada. Isto é só um exemplo para mostrar como ele era. E o Terim chateou-se com o presidente e foi-se embora.
Ficámos ali um mês com um treinador interino e depois apareceu o Mancini. Era adjunto do Eriksson na Lázio e foi a primeira aventura dele como treinador principal. Tinha deixado de jogar há pouco tempo, mas percebia-se que ia ser bom treinador, que as ideias estavam lá. Conhecia o jogo como poucos. E muito exigente.
Não conseguia perceber como é que a malta falhava passes. Lembro-me de que embirrava muito com o Bressan. O Bressan muitas vezes gostava de virar o jogo, fazia passes longos, às vezes falhava e o Mancini parava o treino.
– Como é que não consegues pôr ali a bola?
Pegava na bola e pumba, punha lá a bola direitinha. Para ele aquilo era fácil. Não conseguia perceber como é que alguém não conseguia fazer passes daqueles.
Ele chegou no início de Dezembro, salvo erro, eu estava a jogar, e logo no primeiro ou no segundo jogo pôs-me no banco assim sem mais nem menos. Não é que os treinadores tenham de comunicar, mas achei estranho. Meti a viola no saco e continuei a trabalhar. Na jornada a seguir outra vez no banco. Até que abre o mercado de inverno em janeiro e surgem notícias de que a Fiorentina estava interessada num avançado do Paris Saint-Germain, o Christian, um brasileiro. Além de mim, havia o Chiesa, o Mijatovic e o Leandro Amaral para o ataque. Quando me vieram buscar, reunimos em Lisboa e antes tinham ido ao Porto raptar o Leandro. Ele ia assinar pelo FC Porto, mas acabou por assinar pela Fiorentina.
Mas falava-se que o Paris Saint-Germain também estava interessado em mim, que ia para lá por troca com o Christian, e eu sempre caladinho. Um dia, o adjunto do Mancini vem falar comigo:
– Vamos ficar com muitos avançados. Se calhar era uma boa oportunidade para ti….
– Não quero ir. Não me importo que ele me deixe no banco. Vou continuar a treinar e vou conseguir alterar as ideias dele.
O negócio não foi para a frente. O Christian continuou em Paris, eu não saí, mas fiquei muitas vezes no banco. Alternava entre o banco e titular. E vamos à final da taça, que na altura era em duas mãos. Primeiro jogámos fora. Fomos jogar a Parma e deixou-me no banco. Ganhámos 1-0 lá. Depois, no jogo em casa, fui para o banco outra vez. O Parma tinha uma excelente equipa. Estávamos a perder 1-0 ao intervalo e ele manda-me aquecer. Eu entro, marco um golo, ficou 1-1 e ganhámos a taça. No final do jogo, veio abraçar-me e deu-me uma palmada nas costas. Não disse nada, mas senti que foi um gesto de agradecimento.
Foi dos poucos jogos que o Cecchi Gori foi ver a Florença. No fim, apareceu lá no balneário. Provavelmente havia jogadores que nem sabiam que ele era o presidente. Tínhamos uma pequena piscina para fazer jacuzzi e, no meio dos festejos, o Di Livio e o Torricelli pegaram nele e mandaram-no para dentro de água!
Isto foi no final da época de 2000/01. É engraçado que vou para o Blackburn Rovers em 2012/13, fico a viver em Manchester e sou vizinho do Mancini. Ele era o treinador do Manchester City e íamos muitas vezes tomar o pequeno almoço ao mesmo café antes de irmos para os treinos.
A primeira vez que o vi estávamos a entrar para esse café. Era o Costa Café. Estava com a equipa técnica dele e o adjunto era o mesmo da Fiorentina, com quem fiquei com boa relação. Estávamos ali na rua à conversa e até saiu uma foto nossa num jornal.
Vivia em Alderley Edge, uma pequena vila com espaços verdes na periferia de Manchester. Foi onde viveu o Cristiano Ronaldo. Aliás, os jogadores do City e do United viviam ali todos, e havia sempre paparazzi. O Balotelli era apanhado todos os dias. Só havia lá uma bomba de gasolina e ele era sempre fotografado quando estava a pôr gasolina.
Então saiu essa foto nossa, à conversa com os adjuntos. O tal adjunto era o Angelo Gregucci. Tinha sido jogador da bola, era central, e houve uma altura em se separou do Mancini e foi treinar sozinho.
Virei-me para o Mancini e disse-lhe:
– Sabes que te dei o teu primeiro título como treinador?
Ele começou-se a rir.
– É verdade. Ganhámos a Coppa Itália.
Depois disse ao Gregucci:
– E tu lembras-te que queriam mandar-me para o Paris Saint-Germain?
Eles só se riam.
– Se tivesse saído, se calhar não tinhas ganho aquele troféu e, se calhar, não estavas no Manchester City.
Acabou a época, ganhámos a taça, depois fomos de férias e nesse verão venderam o Rui para o AC Milan e o Toldo para o Inter. Entrou muito dinheiro, mas iniciámos a época e começaram a deixar de pagar.
A equipa estava muito mais fraca, depois o Chiesa lesionou-se gravemente, as coisas estavam a correr mal, não se pagavam os salários e o Mancini, de um momento para o outro, desapareceu. Estávamos no balneário para ir treinar e estranhámos a ausência dos adjuntos e do resto do pessoal.
– Mas não está aqui ninguém? Não há treino?
– Ninguém atende os telefones, não sabemos o que é que se passa. Temos de mandar alguém lá a casa. Pode ter acontecido alguma coisa.
Foram lá a casa, ninguém abria a porta. O Mancini desapareceu, sem avisar. Depois mandaram alguém da agência, com outra chave, ao apartamento. Já estavam preocupados. Ele arrumou as coisas durante a noite e pôs-se ao fresco. Foi-se embora, assim do nada! Chateou-se com o presidente.
A partir daí aquilo piorou mais. Veio o Ottavio Bianchi, que já lá estava a trabalhar na Direcção. Tinha sido treinador do Nápoles. Durante algum tempo foi um treinador da casa, depois foi o Bianchi, entretanto aquilo foi por ali abaixo. Fico feliz por ver que hoje, depois de tudo o que se passou, o clube está bem.


Quinto melhor marcador da história da Selecção Nacional, o antigo goleador de Boavista, Benfica e SC Braga teve passagens por Itália e Inglaterra, por Fiorentina e Blackburn Rovers, respectivamente. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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