Nuno Coelho

Estive um ano na Grécia, um ano em que tive muitas histórias, umas pelo lado positivo, outras nem tanto. Foi um ano muito complicado. Estive num clube que é considerado um dos cinco grandes da Grécia, o Aris de Salónica, sempre com 25/30 mil adeptos no estádio, só que estava numa das fases mais difíceis da sua história, com muitos problemas financeiros, muitos problemas directivos, jogadores já com um e dois anos de salários em atraso e foi um ano em que tive três presidentes e cinco treinadores! De mês a mês, ou mudava o treinador ou o presidente.
A história que tenho para contar acontece precisamente numa dessas mudanças de presidente. Faltavam mais ou menos cinco jornadas para acabar a liga, estávamos ali nos lugares mesmo colados aos de descida e praticamente quem mandava no clube era uma das claques. Tinham muita força no clube, eram eles que decidiam quando o presidente saía e, normalmente, quando havia confusão, os primeiros a ir embora eram os presidentes. Quando o segundo presidente estava a dirigir o clube, essa dita claque suspeitou que ele queria que o clube descesse de divisão, isto porque se dizia que o objectivo era que descesse para poder mudar de nome, ter um novo número de contribuinte e limpar as dívidas, um pouco à imagem do que o Salgueiros aqui fez ou o Estrela da Amadora.
Ao suspeitarem disso, mandaram o presidente embora e é aqui que entro na história. Por causa das dívidas, o clube tinha uma limitação na inscrição de jogadores estrangeiros, ou seja, a equipa era constituída por jogadores gregos e só podiam ter cinco acima dos 23 anos. De resto era tudo miúdos que no ano anterior jogavam na equipa B e só puderam contratar três estrangeiros, que era eu e dois espanhóis. Éramos praticamente a base da equipa, os mais experientes, juntamente com os gregos que tinham mais de 23 anos.
Quando a claque decide mandar esse segundo presidente embora, os dois chefes da claque falaram com uma pessoa do clube porque quiseram reunir-se comigo e com um dos espanhóis, que também era um dos pilares da equipa, num hotel fora de Salónica. Claro que ficámos um pouco apreensivos porque lá as claques têm tendência a ser agressivas e vários jogadores do Aris chegaram a ter problemas. Ponderámos não ir, mas ao mesmo tempo sabíamos que se não fossemos seria pior. Eles tentaram passar sempre a imagem junto da pessoa que fez o contacto entre nós que não nos iriam fazer mal, que não estavam ali para nos bater. Sempre deixaram isso bem claro desde o princípio da época, porque sabiam que a equipa era jovem e seria um ano complicado. Tanto que nesse ano nem houve tantos problemas por causa dessa compreensão da parte deles. No entanto, era a fase final da época, há mais tensão, é sempre mais complicado.
Decidimos ir e fomos ter essa reunião com os chefes da claque, que eram líderes de um grupo de três ou quatro mil adeptos. Basicamente, o que quiseram saber de nós foi como estava a equipa, se estava empenhada em conseguir a manutenção, e foram de certa forma justificar-nos porque é que o segundo presidente se tinha ido embora. Apesar de o clube ter muitas dívidas, não queriam que descesse de divisão nem mudasse de nome porque isso, para eles, era perder a identidade do Aris original. A reunião também foi para saberem se achávamos que alguns dos jogadores mais antigos pudessem estar vendidos porque, lá está, havia jogadores com cerca de dois anos de salários em atraso, houve jogadores que disseram isso aos jornais. Aquele clube tinha sete jornais só a falar deles, era um mediatismo muito grande mesmo!
E prometeram-nos que mesmo que o clube descesse de divisão não iriam bater em ninguém, foi uma das coisas que lhes pedimos. O nosso medo também era que depois alguns jogadores soubessem que tínhamos tido essa reunião, isso iria trazer-nos problemas dentro do balneário. Acabou por ser uma coisa bem feita, ninguém soube. E no meu ano conseguimos a manutenção, na época seguinte acabaram por descer de divisão.


Antes da Grécia passou, entre outros, por FC Porto B e Benfica. Regressou a Portugal em 2013 para representar o Arouca e é o actual capitão.

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