Nuno Coelho

Desde que me lembro de mim, sempre gostei de futebol. E o verbo gostar talvez seja até um pouco escasso. Ainda nos dias de hoje, apesar das milhentas coisas que me desagradam em redor do mesmo e se o resto da vida não se intrometer no caminho – afinal de contas, “o futebol é a coisa mais importante de entre as coisas menos importantes”, para citar Sacchi que fica sempre bem nestas coisas –, sou bem capaz de passar de manhã à noite a ver jogos consecutivos. E se sempre gostei de ver, também sempre gostei de jogar, até porque quando estava a crescer eram raras as transmissões televisivas (ai, a magia da final da Taça de Inglaterra no velho Wembley…) e ir ao estádio, no Carocha do meu pai, acontecia de 15 em 15 dias, com mais um punhado de quartas-feiras europeias e, eventualmente, uma final da Taça no Jamor.

Porém, crescer no centro de uma cidade à época envelhecida e com poucos espaços disponíveis não era exatamente propício à evolução técnica do futuro craque. Na rua, ou no pequeno quintal de casa dos meus pais, a bola podia ser qualquer coisa, desde garrafas amarelas de lixívia a bocados de tijolo partido, passando por redondinhas de plástico, madeira (isso, as dos matrecos, surripiadas das mesas da zona) ou borracha que estavam sempre a saltar para o meio da estrada ou a embater nos vidros. O “cautchú” era um um luxo raro… quase tão raro quanto o talento com que o universo decidiu brindar os meus pés.

Ainda assim, até muito tarde – que é como diz, quando já tinha mais que idade para ter juízo –, acreditei que podia ser futebolista. Ainda me auto-inflingi a vergonha de ir a duas sessões de captação, uma no Atlético e a outra no Belenenses, com o sucesso esperado. Naturalmente, voluntariei-me para defesa direito, a posição que mais ninguém queria, só para, pelo menos, pisar o relvado (no primeiro caso, o que me valeu uma lesão no tendão de Aquiles assim que tentei atrasar a bola, que pesava uns 10 quilos e era mais rija que uma entrada do Vinnie Jones, para o guarda-redes na primeira vez que lhe toquei) ou pelado (no segundo, com um amigo diligente a cronometrar em cinco segundos a minha interação total com a bola).

Finalmente convencido que era melhor procurar o ganha-pão noutra atividade, sobrava a escrita e os conhecimentos acumulados em anos e anos de torneios imaginários (mas inspirados na realidade) de caricas (com equipamentos diligentemente desenhados e recortados), Futebol de Mesa e, claro, o inevitável Subbuteo (o que custou arranjar uma constituição da equipa de Malta antes de eles levarem os 12-1 em Espanha!). Se o destino me quis longe do cheiro de balneário, embora muitos pavilhões e alguns relvados tenham continuado a ser massacrados ao longo dos anos de forma verdadeiramente amadora, deu-me cedo a possibilidade de continuar perto do meu futebol (e desporto em geral).

E o ponto alto, a minha final da Liga dos Campeões, deu-se em 2001: estava a sair da redação do Record direito à festa de aniversário da minha mulher, quando me agendaram, para o dia seguinte, uma entrevista a Johan Cruijff! Entre a satisfação de conhecer aquele que foi considerado o melhor jogador europeu do século XX e a obrigação familiar, lá fui para casa a tentar matutar como é que ia preparar, quase do nada, o trabalho, que incluía ainda a apresentação do curso para dirigentes que o holandês patrocinava e razão da sua presença em Lisboa, a receção no Palácio de Belém do Presidente da República e uma visita ao ministério da Juventude e Desporto.

Ainda sem internet em casa (como é que uma pessoa vivia nesses dias?!) e depois de um jantar atribulado (que obrigou a uma mudança de restaurante depois de no primeiro dois empregados se terem pegado à pancada…), lá me salvou um pequeno livro da World Soccer com a vida do craque que fiquei a ler até às tantas da manhã, e que a lenda gentilmente autografou. No meio de um dia tão agitado, o espaço para a entrevista ficou reduzido a 20 minutos, para grande desespero do perfecionista Miguel Barreira, o repórter encarregue de fotografar o evento. Como se não bastasse, o local inicialmente previsto não estava disponível, acabando por ser a cafetaria do CCB o “estádio” para a conversa meio em inglês, meio em portunhol que ainda resultou em seis páginas, apesar dos sons dos talheres e tabuleiros que “abrilhantaram” na gravação a voz de um Cruijff pouco inclinado a voltar a treinar. Para mim, ficou a foto com o craque e a satisfação de ter sobrevivido ao dia. Cada um levanta a taça que consegue. E esta foi boa.


Começou no jornal O Emigrante (hoje Mundo Português), passou por A Capital (duas vezes) e Record (onde também bisou). Atualmente é freelancer, colaborando frequentemente com o Diário de Notícias. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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