Nuno Camarneiro

Enquanto decorria o Mundial de 2014 viajei até ao Brasil para apresentar um livro. Andei pelo Rio de Janeiro, assisti aos adeptos croatas que lançavam fogo-de-artifício na praia de Copacabana aos adeptos argentinos que, em plena crise, tentavam arranjar dinheiro para a viagem de regresso vendendo artesanato ou cantando nas ruas e fui acompanhando os meus amigos cariocas, reforçando-lhes a confiança e dizendo que “Se Portugal for eliminado, vou torcer por vocês.”
E lá fomos eliminados, e comecei a torcer por eles… Até que chegou o jogo das meias-finais, Brasil-Alemanha.
Estava tudo preparado. Jantar volante em casa de um camarada escritor, muita cerveja, muita comida, cachecóis, buzinas, entusiasmo a rodos. Éramos mais de trinta num pequeno apartamento, encavalitados no sofá, sentados no chão, de pé, para melhor sofrer.
A coisa começou equilibrada, o Marcelo rematou ao lado aos três minutos e o Khedira viu um seu pontapé ser desviado pelo colega de equipa aos sete. Tudo era ainda possível. Os meus amigos cariocas caprichavam na cerveja e eu com eles, rindo, acreditando.
E depois… o golo alemão, aos 11 minutos, de canto. O culpado, o infame, foi Toni Kroos, sem qualquer respeito pelos anfitriões nem pelos meus amigos que tanto cuidado puseram na função. O clima ficou tão gélido quanto as cervejas, algumas piadas de conforto, a insegurança mal disfarçada, mas o Brasil é grande, tão grande, sem medo, galera!
E depois… exactamente quando os pastéis de carne seca estavam a sair do forno, aos 23 minutos, Miroslav Klose marcou o segundo. Acenderam-se cigarros, mandaram-se para lugares longínquos as mães dos alemães, que pouco se importaram e entraram numa fúria digna de uma invasão de Panzers. Kroos, aos 24 e aos 26, num intervalo de 70 segundos, maldito, endiabrado. 4-0, já uma catástrofe.
Pensei em voltar ao hotel, mas sentia-me solidário com aquela tragédia e não quis ser amigo da onça. Sofremos juntos, o quinto golo, ainda na primeira parte, e mais os outros. Khedira aos 29 (e eu que gostava tanto dele), Schürrle aos 69 e aos 79. O Brasil ainda reduziu aos 90 (o verbo nem se aplica, tal a desigualdade) e ficou fixado o resultado, 7 a 1, 7 a 1, porra! Um resultado de hóquei em patins com um Brasil que não soube patinar. Terminámos as cervejas em silêncio, como se velássemos um morto na sala. Dei alguns abraços, senti lágrimas nos rostos, a vergonha nas palavras. É assim, assim a vida, assim a bola. O Brasil é filho de Deus, como os judeus que tanto sofreram nos seus caminhos. São ainda o povo escolhido do deus do futebol, embora provado, humilhado e vencido.
As amizades resistem aos resultados e as grandes selecções também, disse eu e acredito.


Licenciado em Engenharia Física e doutorado em Ciência Aplicada ao Património Cultural, venceu o Prémio Leya com “Debaixo de Algum Céu”, tendo hoje romances já traduzidos em várias línguas.

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