Nuno Calado

Houve uma altura em que o Benfica B jogava em Odivelas, era ali que fazia os jogos em casa quando ainda não tinha o centro de estágio, quando estava tudo assim meio caótico. Sou amigo do Porfírio, isto foi quando ele passou pela equipa B do Benfica, ali por volta de 2003, e tinha combinado com ele ir ver um jogo mas cheguei atrasado, já estava a acabar a primeira parte. E estava à espera de o ver já dentro de campo, claro. Então chego, estaciono o carro e ele estava também a sair do carro, ainda vestido à civil, bué da tranquilo, com o Shéu. E perguntei-lhe: “então o que é que estás aqui a fazer? Não ias jogar?” E ele: “não, vou só entrar na segunda parte.” Acho que eles têm de entregar os bilhetes de identidade, ou pelo menos as fotocópias autenticadas, para as fichas do jogo e esqueceram-se da dele, então teve de ir a casa, a Sintra, buscar a cena…
Lembro-me de outra história dele quando jogava pela equipa B, uma vez que o Jesualdo Ferreira não contava com ele. O Porfírio assumia um bocado aquele papel de estar aos gritos com os putos. Nesse dia ele até chegou de carro com o João Pereira num Fiat Uno. Foram juntos para o jogo, era no campo do Loures. Lá estava ele a dar indicações em campo, como o jogador mais velho e mais experiente, e sofreram um golo. E ele: “Foda-se! Eu disse-vos, avisei para cobrirem ali e não sei quê.” Depois há uma jogada em que ele agarra na bola naquela do “não vou perder esta merda deste jogo”, entra na grande área e faz aquela finta clássica de teres a bola de um lado, o gajo vem, sacas a bola para o outro e ele dá-te um pau. Penalty e os gajos ficaram possuídos. Já não me lembro se empataram ou se o Benfica B ainda acabou por ganhar, mas os gajos da outra equipa estavam malucos. Nesse jogo até encontrei lá a mulher dele, também estava lá a assistir. Nisto, estavam lá os pais de um dos putos do Loures que estava a jogar e começa o pai do puto: “seu filha da puta, se o apanho aqui fora faço e aconteço, o gajo ganha mais do que toda a gente e não joga nada à bola, só sabe é fazer-se ao penalty…” Pá, bué da revoltado com a cena. Entretanto o Hugo vem do balneário, chega ali ao pé de nós e estava lá o puto com os pais. Olhei para o puto e o gajo bazou automaticamente. Baixou a cabeça e foi-se embora.
E tinha um amigo em comum com o Enke, um alemão que trabalhava numa loja de discos e passou a viver na casa dele. Passei a dar-me com ele, mas falava mais com a mulher, o Enke era um gajo simpático mas meio reservado. Então costumava levar a mulher dele aos jogos, ia lá para a parte reservada à família, no antigo estádio ainda. A mãe do Calado era um espectáculo, fartava-se de gritar, as mulheres dos outros jogadores até ficavam assim naquela a olhar, tipo “o que é que se passa aqui?” Era tipo: “ó filho, sai daí! Sai daí!” E um dia estávamos a ver o jogo, na altura raramente corria bem, e estava a falar com a Teresa e a mulher do Van Hooijdonk, que também era bué da fixe, e a conversa foi para a cena dos blacks terem bué da ritmo para dançar e ela disse que era mentira porque o Van Hooijdonk não tinha ritmo nenhum: “Eu chamo-lhe Bounty, ele é preto por fora e branco por dentro. Não tem jeito nenhum para dançar, é uma cena inacreditável.”
Um dia íamos para sair do estádio, que tinha uma garagem mais pequena do que tem hoje, e havia pessoal que estacionava numa fila do meio e impedia a saída dos carros que estavam bem estacionados. Mal acabou o jogo fomos logo para baixo e ficámos uma hora e tal à espera para que aparecesse o gajo que estava atrás de mim para tirar o carro. Ficámos ali a conviver com o Poborsky, o Bossio, que era bué da simpático, e o único gajo que não estava no convívio era um defesa direito jeitoso chamado Dudic que estava dentro do carro com o motor ligado. Até que ao fim para aí de meia-hora houve um gajo que lá foi dizer: “se calhar desligavas essa merda antes que a gente morra todos aqui!” Revela muito a inteligência que aquele gajo tinha, não só para jogar à bola mas na vida real.


Apaixonado por música, é um dos principais nomes da rádio e da TV nacional. Começou na Antena 1, em 1991, e três anos depois mudou-se para a Antena 3, onde ainda hoje trabalha.

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