Nélson

O passo mais decisivo da minha carreira de futebolista é precisamente o início. Não como profissional, mas na formação, mais concretamente nos infantis, e engloba-me a mim e ao meu irmão Albertino. Somos oriundos de uma família pobre, nunca faltou o essencial, como a alimentação, roupa e calçado, mas não dava para muito mais. Fomos oito irmãos, só o meu pai é que trabalhava, por isso era tudo espremido. Então aos 10 anos fui com o meu irmão, que também foi profissional, prestar provas no FC Porto. Há sempre aquela chama nas crianças de um dia virem a ser jogadores de futebol. Nada que a gente alimentasse a sério, mas queríamos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance. E na altura os treinos de captação no FC Porto, no velhinho campo da Constituição, eram muito famosos. Tudo o que era criança ia lá parar. Recordo-me que o FC Porto marcava dias e horas fixas e aquilo era impressionante, era a confusão total! E lembro-me de lá irmos com uns amigos, já que tínhamos idade para incorporar as equipas de competição das camadas jovens. Dei meia dúzia de toques, entre cinco e dez minutos, e fui logo chamado pelo treinador do FC Porto, o Sr. Francisco Carneiro, que me perguntou a idade, pediu a identificação, essas coisas. O meu irmão também ficou, tal como outro amigo nosso, ficámos três.

Chegámos a casa, todos contentes, e demos a notícia aos nossos pais. Para nossa tristeza, com o intuito de nos demoverem de jogar, disseram-nos que só nos podiam dar um bilhete de autocarro para cada um. O problema é que somos oriundos de Rio Tinto e até ao campo da Constituição precisávamos de quatro bilhetes, dois para cada lado. Os treinos costumavam ser às 17h30, depois acabavam por volta das 19h, tomar banho e não tomar eram 19h30, só chegávamos a casa por volta das 21h. Só mais tarde soubemos que nos queriam demover do futebol para nos concentrarmos nos estudos e porque como éramos crianças era complicado andarmos sozinhos à noite. Foi um desafio que nos foi colocado e nem pensámos duas vezes. Ok, se as coisas são assim nós saltamos o problema. O que é que nós fizemos? Fomos jogar no FC Porto, porque para uma criança jogar no FC Porto, no Sporting ou no Benfica era um sonho, no caso do meu irmão era mesmo o clube dele, eu sou do Sporting, e passámos aquela primeira época assim: íamos a pé para os treinos, demorávamos cerca de 2h45 para fazer nove kms, e regressávamos de autocarro. O pior era no Inverno, com a chuva, porque mesmo com o chapéu chegávamos molhados ao treino e depois vestíamos a mesma roupa ainda molhada para regressar a casa.

Felizmente, o FC Porto foi sensível ao nosso caso, também por sermos irmãos, e no final da época passaram a pagar-nos o passe para irmos treinar sem pagar transporte. E foi assim, com perseverança, que superámos as adversidades e foi uma fase importante para nos ajudar a crescer como homens.


Campeão mundial de sub-20, jogou em clubes como Salgueiros, Sporting, Aston Villa, FC Porto e V. Setúbal, além de ter somado 10 jogos pelos AA. Actualmente é gestor de espaços desportivos na ITS.

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5 comentários sobre “Nélson

  1. Grande Nelson piaça e Tino orelhas… Muitos jogos no ringue do Rio Tinto fizemos…E também eu tentei a minha sorte na constituição…

  2. Partilhei o balneário com eles nas camadas jovens do Salgueiros, o que me lembro melhor é a total dedicação, responsabilidade e humildade, não falo nas qualidades futebolísticas pois todos conhecem… Abraço do Esteves

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