Nelson Veiga

Quando cheguei ao Vitória de Setúbal foi no ano em que o meu primo, o José Rui, saiu do clube. Estávamos na I Divisão, o meu primo também já tinha sido treinado pelo técnico que tínhamos na altura, e fez uma cachupa na casa dele. Convidou-me a mim, ao Sandro, ao Hélio, ao meu treinador e ao adjunto. Comemos uma grande cachupada, foi um espectáculo. Nessa semana fomos jogar ao Marítimo e demos uma goleada, fizemos um jogo monstruoso. Passado para aí um mês, ele voltou a convidar-nos para irmos comer uma cachupa a casa dele e nessa semana também ganhámos o jogo. Depois nunca mais fez a cachupa e as coisas viraram. Começámos a perder, as coisas não estavam a correr bem e o meu primo disse-me:
– Tenho de fazer uma cachupada para ver se vocês começam a ganhar jogos. Vocês têm de dar a volta a isto e aquela cachupada dava-vos sorte!
E eu é que levava o milho de Lisboa para a cachupa. Vivia em Setúbal mas ia a Lisboa para aí uma vez por semana e levava o milho. Passaram-se duas ou três semanas, o meu primo pedia-me o milho e eu esquecia-me.
Uma vez acabou o treino e o adjunto foi chamar-me ao balneário.
– Ó Nelson, vai ali que o mister quer falar contigo.
O pessoal logo a dizer-me que ia levar uma dura, que já tinha feito merda e eu até fiquei um bocado apreensivo porque não tinha feito nada de mal para ser chamado. Lá fui e ele disse-me:
– Estamos numa fase complicada, as coisas não estão a sair. Estamos a jogar bem mas não ganhamos e todos temos de dar o máximo pela equipa. E tu não és diferente, tens de dar tudo pelo grupo.
E eu:
– Ó mister, mais do que eu tenho dado não posso dar. Tenho dado tudo.
– Não tens dado tudo, pá. Há quanto tempo é que tu estás para ir buscar o milho para fazer a cachupa? Desde aquela cachupa que nunca mais ganhámos.
– Está a falar a sério?
– Claro que estou a falar a sério! Vê lá se trazes o milho para fazermos esta semana.
E eu, nem estava a contar com isso, naquela noite tive de ir a Lisboa para comprar milho para de manhã levar ao meu primo para ele fazer a cachupa naquela semana. A cachupa estava muito boa, mas infelizmente não ganhámos no domingo, as coisas não melhoraram e passado umas semanas o treinador foi embora. Afinal não era do milho…
Tenho outra história de quando fui assinar pela Naval. O mister Toni ligou-me a dizer que gostava de contar comigo, para a II Divisão, um projecto para subir. Eu tinha acabado de fazer uma época bastante boa no Setúbal e estava para ir para o Nantes mas as coisas acabaram por não resultar, até comecei a época mais tarde, e aceitei negociar. Perguntou-me se estava em Lisboa, disse que sim, e ele disse:
– O presidente tem de ir ao Algarve, vai ali por Vila Franca. Podes encontrar-te com ele ao pé das portagens para se conhecerem, chegam ali a acordo e está feito. Quero muito que tu venhas.
E fui ter com ele, era o Aprígio Santos. Chegou mesmo à Aprígio, para quem o conhece sabe do que estou a falar.
– Então, pá? Estás bom?
– Presidente, como está? Tudo bem?
– Fizeste uma boa época no Setúbal, gostei de te ver.
– Obrigado.
– Ouve lá, o treinador quer-te na Naval. Quanto é que estavas a receber ali em Setúbal?
Disse-lhe o valor e ele:
– Epá… É impossível a Naval pagar-te isso!
Cumprimentei-o e disse:
– Foi um prazer, gostei muito de o conhecer. Até à próxima.
Dei meia volta para me ir embora e ele:
– Então, pá? Onde é que vais?
– Mandaram-me vir aqui para falar consigo, para assinar contrato. O senhor está a dizer-me que a Naval não tem hipóteses de me pagar aquilo que recebo, não estou a ver motivo para continuarmos aqui a conversar.
– Está bem… Está bem, ok.
Fui à minha vida e ele foi à dele. Passados uns 20 minutos liga-me o Toni, o treinador.
– Então? O que é que se passou?
– Não se passou nada de especial. Mas porquê?
– Epá, o homem está doido. Disse-me: “mandaram-me um preto esperto como o caralho! Eu quero aquele gajo, custe o que custar! Amanhã ele tem de assinar pela Naval.”
No dia a seguir ligou para mim e “obrigou-me” a ir ter com ele à Figueira da Foz. Estivemos três horas reunidos, ele ia atendendo telefonemas, falava de milhões para aqui e para ali, coisas que já nem sabia que tinha, desligava e continuava a falar comigo sobre o contrato. Disse-lhe:
– Você está a brincar comigo.
Ele começava-se a rir:
– Pensas que isto é fácil, não? Isto é muito difícil.
– Eu estou a ver que está mesmo muito difícil a vida para si.
A gente ali a discutir meia dúzia de euros e ele a falar de milhões para aqui e para acolá. Chegámos a acordo, assinei contrato e fiquei lá três anos. Fiquei com o mesmo contrato que tinha no Setúbal. Subimos de divisão e acabei por ser feliz naquele clube. Foi uma grande experiência, com muitas histórias pelo meio.
Para renovar foi outra história. Na primeira época lesionei-me, acho que em Novembro, e estávamos muito bem no campeonato, para subir de divisão. Por acaso, a partir do momento em que me lesiono, a equipa teve uma grande quebra. Fui operado ao joelho, tive seis meses parado, e ele associou a minha lesão à quebra da equipa e a não termos subido. Depois daquilo tudo, cheguei ao fim da época e quis ir-me embora. Também tinha clubes da I Divisão interessados, então cheguei ao pé do presidente e disse que não queria renovar.
– Tu devias ter vergonha na cara. Devias estar aqui ao meu lado a ajudar-me a fazer a equipa. Estiveste lesionado seis meses e paguei-te todos os meses. Paguei-te certinho mesmo sem jogares. É mentira?
– Não, é verdade.
– Pronto. Fizeste o tratamento em Lisboa e paguei tudo, não paguei?
– Pagou, é verdade.
– E agora queres ir-te embora?
Fiquei um bocado sem jeito. E ele diz-me:
– Vamos fazer assim: deixo-te aqui este cheque, está aqui a caneta. Pensa em tudo o que fiz por ti durante este ano e pensa em tudo o que fizeste por mim durante este ano. E escreves aí no papel quanto achas que deves receber. Quanto achares que deves receber é quanto te vou pagar.
E foi assim. Levantou-se e quando ia a sair da sala olhou para mim e disse:
– É fodido, não é?
E foi-se embora.
Fiquei na sala a pensar no que ia fazer. O homem tinha razão. Deu-me o dinheiro que recebia em Setúbal, joguei três meses, pagou-me tudo e contava comigo para subir de divisão… O que é que eu ia fazer? Não ia pôr o dobro, se não joguei, tinha consciência das coisas. Pus lá um valor, mais do que recebia. Ele chegou lá, viu a folha e perguntou:
– É isto, não é? Então vá, podes-te ir embora. A seguir às férias estamos aqui.


Internacional por Cabo Verde, depois da Naval teve uma passagem pelo Chipre, jogou no Desp. Aves e no Atlético e esteve cinco épocas em Marrocos. Joga no Vilafranquense.

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7 comentários sobre “Nelson Veiga

  1. Grande Nélson, espero que esteja tudo bem contigo e com a tua família!!!
    Abraço amigo :) Pimenta (Cacém)

  2. adorei a a do presidente da naval podes crer naquele tempo assinavamos contrato nas arias de serviso grande nelson abraçom di nha parti orlando

  3. Que enorme orgulho tenho por ti Nelson! Ainda me recordo da noitada de copos com o teu velhote no dia em que nasceste. Igualmente me recordo duma grande “pantufada” que mandaste ao Joao Pinto num Sporting-Setubal e minha irma (sportinguista ate’ dizer chega) apanhou-te num voo para Funchal e deu-te uma ensaboadela em pleno voo por o teres mandado para o estaleiro. Nelson, nao desperdices esse dom que tens pela escrita. Tens uma experiencia de vida riquissima nesse mundo do desporto rei. Imagino as historias que terias a contar. Penso que devias encarar seriamente a possibilidade em publicar as tuas memorias. Algumas pessoas ligadas ao futebol ja o fizeram mas nao me recordo que o verdadeiro responsavel pela existencia deste desporto (o jogador de futebol) o tenha feito. Pelo menos um fiel leitor ja arranjaste. Um grande abraco.

    • Enorme orgulho tenho eu pelas tuas palavras primo Fernando.Espero que esteja tudo bem contigo meu amigo, achei muito engraçado o facto de teres estado no festejo do meu nascimento com o velhote, bem sei que eram muito próximos, e belas histórias também têm para contar….
      Histórias de facto são muitas, 20 anos, 3 países diferentes de culturas distintas, resultam numa pequena salada de episódios, alguns deveras engraçados, é o que eu costumo dizer, são o melhor que se leva desta carreira, e vou mais longe, que se leva desta vida, são os episódios/histórias que ficam para a vida, e pessoas e laços que nos marcam para sempre…..

      Grande abraço grande Fernando.

      Nelson Veiga

  4. Grandes Historias! Dava para fazer varios livros! Grande Nelson Veiga, homem de carater, humilde, educado, respeitador e muito trabalhador!

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