Nandinho

No Vitória de Guimarães, numa altura em que estávamos a lutar para não descer de divisão, o presidente e o treinador resolveram contratar o famoso bruxo Alexandrino. De vez em quando reuniamo-nos para ele dar lá as palestras dele e houve um dia em que juntou todos os convocados para esse jogo à volta de uma mesa, com a sala à média luz, tudo em silêncio e ele começa a passar pelos jogadores, um a um, a fazer lá as rezas dele. Estávamos com os pés em cima da mesa descalços, ele mandava-nos tirar o calçado, até que chega junto de um defesa central e começa a passar as mãos por cima dos pés dele durante algum tempo. Não me aguentei e ele:
– Então, Nandinho? Porque é que te estás a rir?
– O que é que você está a fazer?
– Então não vês que estou a dar-lhe técnica?
Comecei a rir-me ainda mais e disse-lhe:
– Você quer dar técnica a esses tijolos?
Com o Alexandrino ficaram muitas histórias para contar, aquilo foi uma época surreal mesmo. Ele costumava levar muitos instrumentos: harmónicas, pandeiretas, maracas, gaitas, pratos, andava sempre carregado. Antes de um jogo, íamos no autocarro, não sei precisar se a caminho do hotel ou se já do nosso estádio, e ele veio sentar-se ao meu lado.
– Nandinho, hoje é um jogo importante, mas nós só ganhamos se fizermos uma coisa.
– Então, Alexandrino? O que é que é para fazer?
– Eu vou levar uma gaita – era uma espécie de vuvuzela ou lá o que era aquilo que ele tinha – e vamos entrar em campo comigo à frente com a gaita e vocês vão todos em fila atrás de mim.
Comecei a rir-me.
– Então você acha que pode entrar em campo? Você nem passa das escadas, os árbitros e a polícia não o deixam ir. Não podem andar elementos estranhos dentro do campo.
– Pois é, tens razão. Então como é que vamos fazer?
– Não vamos fazer.
– Então já sei. Como sabes tocar bem estas coisas, vais tu à frente e os teus colegas vão todos atrás de ti.
Comecei a rir-me outra vez.
– Ó Alexandrino, em primeiro lugar nós não podemos entrar com nada em campo. Em segundo lugar, não posso entrar à frente porque não sou o capitão. E em terceiro lugar, o treinador ainda não disse a equipa, não se sabe quem vai jogar.
– Epá, pois é, tens razão. Então fazemos uma coisa: eu vou para a bancada e levo a gaita. Sempre que tocar a gaita é para estarem alerta porque o adversário está a atacar.
Só dava para rir. Ficou célebre com o firme e hirto como uma barra de ferro num programa do Herman José. Uma vez disse-me:
– Vou ao Herman José e vou levar-te comigo.
– Para quê?
– Vais lá tocar piano que é para eles verem que os jogadores de futebol não são burros, também sabem outras coisas.
– Está bem, Alexandrino.
Por falar em crenças, no meu início, estava a treinar a equipa do Sindicato dos Jogadores da zona norte e num jogo, no Bessa, houve um penálti a nosso favor. E, claro, vieram logo três ou quatro jogadores pedir para marcar porque queriam mostrar-se. Houve um que pediu com mais veemência do que outros, eu já tinha definido quem ia marcar o penálti, e ele veio a correr disparado para o banco:
– Mister, deixe-me marcar o penálti! Deixe-me marcar que eu estou com fé.
Olhei para ele e disse:
– Estás com fé? Mesmo?
– Estou.
– Então ajoelha-te e reza para o teu colega marcar o golo!
O pessoal que estava no banco fartou-se de rir. Isto foi outro treinador que disse, já não me lembro quem foi, e resolvi fazer a mesma brincadeira.


Como jogador passou por clubes como Salgueiros, Benfica, Alverca, V. Guimarães, Gil Vicente e Leixões. Hoje é treinador do Famalicão, na II Liga.

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