Mozer

Quando fui transferido para o Marselha, ao chegar lá, quando começou o campeonato, tinha um colega que era um grande jogador, o artilheiro da equipa, o Jean-Pierre Papin, e em todos os jogos que fazíamos em casa ele dizia-me que ali é que havia pressão, que o estádio ia estar lotado e todo o mundo ia pressionar. E isto acontecia antes de começar todos os jogos, mandava esta historinha para mim.
Uma vez perguntei-lhe: “Mas qual é a lotação do estádio?”, e ele “40 mil.” Respondi: “Eh pá, muita gente não é, Jean-Pierre?” E ele: “É, é. É uma pressão imensa.”
No jogo seguinte, a mesma coisa:
— Hoje o estádio vai estar cheio, é uma pressão…
— Quanto? Quanto?
— 32 mil!
— Caramba! Muita gente, Jean-Pierre.
E passou a temporada toda assim a azucrinar-me a cabeça. Não sei se era por ter um aspecto de muito garotinho, porque já fui para lá com 29 anos. Já vinha do Maracanã com 200 mil pessoas, mas se calhar 30 mil faziam-lhe muita impressão.
Até que nas eliminatórias da Taça dos Campeões Europeus, nas meias-finais, para azar dele caiu o Benfica. E eu pensei assim: “Agora vai ser a minha vez!” No dia a seguir a ter saído o sorteio virei-me para ele e perguntei:
— Jean-Pierre, você viu com quem caímos?
— Vi, vi. Com o teu ex-clube.
— Pois é. Agora você é que vai ver o que é pressão.
— Porquê?
— Porque o estádio lá vai encher.
— Vai encher? E quantos mete?
— 120 mil!
— O quê?!
— É. 120, meu filho. Lá não se brinca.
Viemos para Portugal para o jogo da segunda mão, depois de termos ganho em casa por 2-1. Chegámos com dois dias de antecedência e treinámos naqueles campos secundários do Estádio Nacional. Quando chegámos lá estava lotado de benfiquistas à volta da cerca, nem conseguíamos ver o relvado, e ele falou assim:
— O Benfica está treinando?
— Não, não. Isto aqui é para esperar a gente mesmo, a pressão começa aqui.
Ele ficou completamente nervoso! Chegou o dia do jogo, trocámos de roupa e fomos para o aquecimento. Eu tinha o hábito de ser sempre o último a sair do balneário, porque gostava muito de prestar atenção ao estado de espírito dos meus colegas, para ver se íamos fazer um bom jogo. Sempre fui muito observador nesse aspecto. Quando o meu balneário já não tinha mais ninguém, já tinham saído todos para o relvado, fui também. Quando estava a chegar ao relvado, no túnel de acesso ao campo, eles estavam ali todos escondidinhos, assim só a espreitar e o estádio estava lotadíssimo.
— Vamos embora!
— Não, nós estamos esperando você.
Fui em primeiro, subi a escadaria que dava acesso ao campo, e quando entro no relvado, do outro lado saiu o Eusébio para ser homenageado. Ai Jesus, o estádio explodiu! Um barulhão, e quando olhei para trás estava sozinho no campo. E a receber vaia, 120 mil a dar vaia em mim sozinho. Comecei a chamá-los.
— Não, vamos esperar até o barulho passar.
— O barulho não vai passar, meus amigos. Isto vão ser 90 minutos assim. Anda lá, meu!
Ninguém vinha. E pensei “pronto, já perdi o jogo.”
Foi a história mais caricata e engraçada que tive com um colega de profissão, que era um grande jogador. O inferno da Luz tinha surtido efeito naquele período e realmente era bastante difícil jogar no Estádio da Luz cheio. Para quem não estava habituado era muito complicado.


Internacional brasileiro, é considerado um dos melhores centrais que passou por Portugal. O Benfica comprou-o ao Flamengo, passou pelo Marselha antes de voltar à Luz e terminou no Japão, em 1996.

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