Miguel Szymanski

O chefe de redacção no Semanário Económico, o primeiro jornal em que trabalhei como redactor, deu-me as boas vindas. “Com que então alemão. Grande equipa a de 74”. Levantou o sobrolho: “Sabes com certeza os nomes dos jogadores da Mannschaft?”. Massajei ao de leve a têmpora com o indicador num esforço de libertar alguma cultura futebolística. Não saiu nada. Já tinham passado uns 20 anos desde aquela vitória germânica, mas se alguém me perguntasse por nomes de jogadores alemães campeões do mundo em 1990 ou 2014 (as datas fui vê-las agora à Wikipedia para este artigo), o resultado teria sido o mesmo. O chefe de redacção olhou de alto para mim: “Beckenbauer, Vogts, Breitner, Bohnhof, Cullmann, Hoeneß, Netzer, Overath, Heynckes, Gerd Müller e Sepp Maier”. “E Hrubesch?”, perguntei, para dizer alguma coisa inteligente. “Hrubesch só foi vice-campeão em 1982”, respondeu com crescente desprezo. Tinha-me lembrado de Hrubesch pela interessante grafia do nome (um invulgar ‘Hr’ como se fosse a contracção de Herr Rubesch). E porque um dia um jornalista desportivo quis saber o que ele achava de um treinador o ter descrito como um camaleão em campo, pela sua versatilidade, e o jogador respondeu que se o treinador lhe dissesse isso na cara que logo se via quem é que era um camaleão.
A minha vasta ignorância em matéria de futebol não quer dizer que ache a modalidade desinteressante. Lembro-me de ficar preso à televisão a ouvir Vale e Azevedo dizer que já tinha mandado “o fax” e via-se pela cara que estava a mentir. Sempre tive mais interesse pelos bastidores do futebol – uma mistura de caricatura da sociedade e da economia em geral – do que pelo jogo em si.
Um dia fui entrevistar Abel Xavier para a revista Fortunas&Negócios e tive de fazer uma pesquisa porque não fazia ideia quem era. Anos antes, ao entrar no restaurante A Paz, na Ajuda, fiquei ao balcão a beber uma cerveja com o único cliente presente que, passado pouco tempo, já me tinha posto um braço à volta dos ombros e perguntava incrédulo se não estava mesmo a reconhecê-lo. Eu tinha chegado há pouco tempo a Portugal, depois de muitos anos na Alemanha, e não sabia quem era mas agradeci a imperial que Eusébio fez questão de pagar.
De resto, o futebol tem-me tratado mal. E eu nunca lhe fiz nada. Mesmo nada. Em meados dos anos 70, tinha eu nove anos e estava a viver na Alemanha, todos os rapazes vibravam com futebol. Massacrei a minha mãe até me comprar um equipamento completo e me inscrever na equipa local, o TuS Querenburg 1890. Havia colegas de escola mais velhos que jogavam futebol no TuS e depois dos jogos de campeonatos aos Domingos já recebiam dinheiro. O meu primeiro treino começou com um jogo. Lá estava eu com sapatos novos de pitões a dar-me uma sensação de invencibilidade que, afinal, era só aderência ao relvado. Fechei os olhos por um instante. Vi-me a correr pelo campo de braços abertos, a multidão a jubilar. Passou-me uma capa da revista Bravo pela cabeça. Eu e um título: Weltmeister. Durante todo o treino, por muito que corresse, não consegui tocar uma única vez na bola. Não fiz nada ao futebol. Zero. Foi a última vez que entrei em campo. O trauma da falta de contacto com a bola e de uma multidão entusiástica seriam o suficiente para explicar a minha indiferença em relação ao futebol. Mas posso recuar mais, quando tinha quatro ou cinco anos. Na Praceta Coronel Pires Viegas, em Faro, uma rua em U, de moradias e sem trânsito de passagem, dávamos chutos numa bola, entre carros estacionados. A bola caiu em cima do carro do senhor Mólócócó. O senhor, de idade avançada, passava muitas horas sentado no carro estacionado à porta de sua casa. Nesse dia devia ter estado na sala, junto à janela, a observar o nosso jogo. Segundos depois da bola bater com estrondo no tejadilho do seu imaculado automóvel, o senhor Mólócócó agitava no topo das escadas uma enorme faca na mão, para cima e para baixo, como num filme de terror. A mulher, por trás, tentava segurá-lo.
O futebol desperta paixões. Até em mim: se perguntarem, sou do Benfica. Já o meu avô era. O meu pai era do VfL Bochum, provavelmente porque vivemos lá e não gostava do Bayern que ganhava sempre. Ou ao contrário, sinceramente não me lembro. Entretanto, dobrado o cabo dos 50, já reconheço alguns protagonistas.
No outro dia fui aos Severianos, um restaurante próximo da Lourinhã, e vi o presidente do Benfica. Estava a almoçar com o dono do grupo Valouro-Avibom. Perguntei-me o que estaria Luís Filipe Vieira a fazer na província. Depois li que o fundador da grande empresa agro-alimentar tinha investido uma fortuna em acções da SAD do Benfica. Em troca, tinha o gozo de receber o dirigente desportivo no restaurante da sua terra.
Há pessoas para quem a paixão pelo futebol vale um milhão, há outras que com esse dinheiro compravam um Vieira da Silva para pendurar na sala e ainda aqueles que, num “Best case scenario”, gastam o dinheiro em copos, carros e mulheres depois esbanjam o resto. Cada um que seja feliz como quer. Eu tento viver de acordo com uma máxima de futebol zen: “Baixa a bola que o guarda-redes é anão”. Afinal, temos de ser uns para os outros. Se não, acabamos como o protagonista da “Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty” de Peter Handke: sempre em fuga e sem Gloria*.
*Gloria: mulher que trabalha na bilheteira dum cinema e é morta pelo guarda-redes.


Jornalista/autor, correspondente em Portugal, comentador da RTP 2 e 3, cronista do Diário de Notícias, do semanário alemão ‘der Freitag’ e do jornal português publicado na Alemanha ‘Portugal Post’.

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