Miguel Somsen

Antes de eu ser de qualquer clube, eu era do futebol. O futebol era o meu clube favorito, porque era um desporto mais evoluído que andebol, mais artístico que voleibol e mais espectacular que atletismo. E porque evidentemente todas as outras modalidades eram as adversárias do futebol durante as nossas aulas de educação física na escola e liceu desse tempo. Quando decidi que iria ser do Belenenses, a minha relação com o mundo do futebol mudou. Os adversários passaram a ser os outros clubes, os adeptos dos outros clubes, as cores dos outros clubes, as mascotes dos outros clubes e os melhores resultados dos outros clubes. Vamos rebobinar.

Eu nasci em 1967 e comecei a ir à bola com doze anos, no final da década de setenta. A estreia? 1 de Novembro de 1979, no jogo de apuramento para o Europeu 1980, Portugal-Noruega, 3-1, com um golo do meio da rua do lateral direito Artur. Depois disso? 3 de Setembro de 1980, Benfica-Altay Izmir, 4-0, golos de Humberto Coelho, Nené, César e Chalana. Eu parecia estar a fazer as escolhas certas. Até ir ver um jogo do Belenenses e tudo descambar.

Foi o senhor Diogo, pai do meu cunhado Orlando, quem me começou a levar pelos “maus caminhos” no início de 1981. Eu, que tinha começado por ser do Sporting e depois tendia para o Benfica, acabava como espectador menor de um jogo no Estádio do Restelo contra o eterno némesis de todos os clubes lisboetas, o FC Porto. O senhor Diogo, que já me tinha levado a ver os jogos da Selecção e do Benfica, achava que eu precisaria de conhecer mais clubes antes de finalmente fazer a minha escolha definitiva para a vida. Tudo se resolveu num minuto, no primeiro minuto do Belenenses-FC Porto, quando o Costa, hoje conhecido como José Alberto Costa, fez o 1-0 para os dragões. O golo aconteceu no primeiro minuto do jogo ali à nossa frente, no antigo peão, hoje bancada inferior sul do Restelo, e o resultado assim permaneceu para sempre, ecoando na memória do mais ingénuo e infeliz sócio do Belenenses.

Depois desse jogo, tomei uma decisão: ser adepto fanático do Belenenses. Comprei bandeiras, cachecóis, almofadas e, com o meu irmão Pieter, tornei-me sócio do clube. Para o Belenenses tudo também mudou: a partir desse ano foi sempre a cair. Acabámos o campeonato em quinto lugar, perdendo a corrida à Europa para o rival Boavista. Na temporada seguinte, o Belenenses ficou em 11.º lugar. Um ano depois, na Primavera de 1982, e pela primeira vez na sua longa história, o histórico de Belém, que era a imagem decrépita do Estado Novo, clube favorito de Américo Tomás, desceu de divisão. Fizemos 20 pontos nesse campeonato, ganhámos apenas cinco vezes em trinta jogos. Até hoje ninguém no Belenenses sabe que o culpado pela descida de divisão do Belenenses fui eu, Somsen, o infeliz pé-frio, que tomou em 1981 a decisão errada de amar para sempre aquele clube de coração.

O primeiro ano do Belenenses na segunda divisão foi pior que o último na primeira divisão. O Farense, que tinha uma equipa de luxo, ganhou o campeonato com treze pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Lusitano de Évora. O nosso treinador era Félix Mourinho e o pobre homem parecia andar aos papéis. Recordo por alto a humilhante derrota em Sesimbra, o empate a zero com o Barreirense, cuja baliza era defendida por Neno, e a inesquecível derrota por 1-3 em casa com o Odivelas, onde jogava um tal de Oceano, então com 20 anitos.

O ponto mais marcante dessa temporada foi uma fugaz subida aos céus em Novembro de 1982, quando se jogou a primeira eliminatória da Taça de Portugal. Como chovia copiosamente por todo o país, nove dos jogos desse fim de semana foram interrompidos ou adiados. O Belenenses recebeu no Restelo uma equipa açoriana de amadores de Vila Franca do Campo, da ilha de São Miguel, e toda a gente esperou que o jogo também fosse adiado. Mas não, ninguém queria saber da chuva que fazia em Lisboa ou no país e, a bem do calendário, este jogo de miseráveis iria mesmo realizar-se. Ainda hoje, todas as poucas centenas de pessoas que ali estiveram naquele domingo frio e sombrio se lembram de como tudo aconteceu.

Em dois tempos o Belenenses despachou a eliminatória. À meia hora ganhava por 5-0. Ao intervalo estava 8-0. A humilhação galopou para a segunda parte, com uma “chuva de golos” (citando a imprensa). Ao intervalo, Félix Mourinho tirou Djão e fez entrar um jovem chamado José Mário, que ainda marcou três golos, talvez o único hat-trick da sua carreira. No final do jogo só faltou pedir ao árbitro o café e a conta: 17-0. Aquele foi o jogo mais importante pelo Belenenses do jovem José Mário, que mais tarde viria a destacar-se como treinador com o nome de José Mourinho. Um jovem que ali, naquele dilúvio, aprendeu a nadar, e de certa forma devolveu a alguns de nós essa esperança de poder ser adepto de um clube e mesmo assim continuar a ser também adepto de futebol.


Especialista em áreas como música, cinema, televisão e viagens, trabalha na TVI e já escreveu para, entre outros, Blitz, O Independente, Elle, Vogue e Luxwoman. É ainda um dos sócios da Gin Lovers.

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

11 comentários sobre “Miguel Somsen

  1. (…) [speechless] :-)

    P.S.: percebo agora que não é por puro acaso que gosto dos seus textos, desde a época do saudoso Independente.

  2. Nasci em 1967, e estas foram as minhas primeiras épocas belenenses – mas tive alguma sorte, decidi antes daqueles 90 minutos contra o golo de Costa. Na época anterior, a ouvir o relato da vitória por 1-0 contra o Benfica – e a fazer de Rui Paulino, titular nesse jogo, o meu herói.

  3. Muito bonito. Belo texto. Senti tudo igual, apenas já nasci belenenses embora te tenha tido familiares que me tentaram desviar.

  4. Muito bom, revi-me em muita coisa que escreveu.
    Sim, também sou Belenenses desde petiz e sócio desde essa fatídica descida de divisão, e sim era um dos poucos Belenenses que viu esse dilúvio de golos. Apesar de ser novo de idade, tinha na altura 13 anos, lembro-me e recordei com um sorriso estes momentos de ser Belenenses e fique descansado que a culpa não é sua …

    Abraço.
    Luisdasilva@vodafone.pt

  5. deixe um comentário…. pois é! mas precisava de uma palavra nova que não sei construir…então, uso as que nunca se gastam: obrigada e bem haja Miguel Somsen

Deixe um comentário