Miguel Gizzas

Estava dois mil e quatro a meio. Nesse dia juntava-se algum amarelo ao imenso vermelho e verde, num adejar que tornava avenidas em mares de cor. Bandeiras empunhadas com a força de um sonho, bem maior do que a força de um país.
De um lado lusitanos, espanhóis do outro. De tempos a tempos será assim. E aí buscamos tudo o que temos para dar até morrer, nem que seja no futebol, como era desta vez. Jogava-se o acesso aos quartos-de-final e a sina era a de sempre: só a vitória nos salvava, tudo o que assim não fosse eram contas de milagre, que só uma vez nos tinha assistido, no velhinho sonho do Torres. E como os milagres são como relâmpagos, que não caem duas vezes no mesmo lugar…
Tinham vindo colegas espanhóis da empresa onde trabalhava, juntámo-nos todos no Hotel da Lapa, programa de luxo quando o que se pedia era bifana e imperial. Dali seríamos levados para o estádio, depois de alguma personalidade do futebol que tinha sido convidada dizer umas coisas.
Íamos bebendo e despicando conversas para matar o nervoso, esperando que o correr dos ponteiros nos pusesse dentro do mini-bus.
Ao meu lado, jeito acabrunhado e gravata que me pareceu desabituada de grandes andanças, um homem sozinho. A meu ver, o motorista que aguardava para nos levar ao estádio. Meteu conversa comigo:
– És espanhol?
– Claro que não!
Que era português, mas os portugueses safam-se em qualquer língua, explicava-lhe em tom jocoso, como quem diz que com os espanhóis a história é outra. Verdade que estava tão habituado a outras línguas que nem me apercebi que se dirigiu a mim num inglês afrancesado.
Perguntou-me o que fazia, interessou-se pela companhia onde trabalhava, falámos das marcas, do mercado, de tudo o que pude dizer àquele homem que, limitado pela função de condutor de mini-bus, tinha ali quem lhe contasse um pouco mais de mundo.
Só ao fim de um bom quarto de hora estranhei que contratassem um chauffeur francês. E perguntei-lhe o que fazia. Que trabalhava no meio futebolístico, respondeu-me, quase a medo.
Arregalei-me de interesse.
– Sim? A fazer o quê?
– Manager desportivo.
– Sim? Onde?
– Em Inglaterra.
– A sério? Mas em algum clube conhecido?
– No Liverpool.
Aí, parei-o, autoritário. Sei de futebol o suficiente para não ser enganado por um chauffeur.
– Mas o manager desportivo do Liverpool é o Gérard Houllier.
– Exato. Sou eu.


A história de “O dia em que o mar voltou”, romance musical de Miguel Gizzas, é contada em cinema de animação, intercalado pelos temas musicais do livro, cantados ao vivo em digressão pelo país. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Deixe um comentário