Miguel Domingues

Para quem não sabe, eu durante dois anos fui árbitro de futebol. Nós não podemos ter um ano de actividade e chegar à Primeira Divisão, como um jogador que pode ir logo jogar a Liga dos Campeões. Temos de fazer todo um percurso, subir de divisões, é quase como se fosses um clube a começar.
Comecei quando estava na faculdade e um dos meus melhores amigos da altura, que conheci lá, já era árbitro de futebol. Ele disse-me: “Tens de ir tirar o curso, estás sempre a mandar bocas…” E fui. Depois fiz uns seis meses de estágio e começas sempre como árbitro assistente, quase nunca és árbitro, só no final da época é que começas a apitar os primeiros jogos, primeiro nos iniciados, depois juvenis, juniores… Logo na minha primeira época fiquei em segundo classificado, o que queria dizer que ia apitar a final de apuramento de campeão da Segunda Divisão de juniores.
Era ali na zona de Mafra ou de Torres Vedras, já não me recordo da localidade. O jogo estava a correr tranquilo, já estava 3-0, e a equipa que estava a ganhar é que despoletou tudo aquilo que vou contar. Há um pontapé de canto, para aí aos 70, 75 minutos, e há uma troca de palavras entre um jogador e um membro do público. Não chego a perceber o que é mas passado um bocado aquele jogador, que era o que ia marcar o pontapé de canto, já está a trepar por cima da rede. A seguir vêm mais seis jogadores da equipa dele, saltam todos a rede e envolvem-se numa escaramuça, do lado de fora.
O jogo estava a correr bem, pelo menos da maneira que eu estava a ver, porque nós nunca temos muito bem a noção, achamos que acertamos sempre em tudo. Já não continuou, ficou por ali. Os sete elementos que se envolveram em agressões lá fora obviamente tiveram de ser expulsos e ainda estive um grande bocado com a equipa de arbitragem ali a pensar “isto não está a acontecer”. O jogo tinha tudo para correr bem e chegar ao final. E a equipa que estava a perder 3-0 acabou por ganhar o campeonato.
Cheguei a fazer equipa com árbitros que actualmente estão na Primeira Divisão: o Tiago Martins foi meu chefe de equipa, fiz o último jogo com o João Capela antes de ele subir de divisão, na altura na II B, um Paredes-Pedras Rubras, em que era o árbitro do lado do peão e saí com as minhas costas muito molhadas, mas devido à saliva que saía da boca de algumas pessoas. E torneios cheguei a fazer com o Pedro Proença e com o Duarte Gomes.
Nem sempre é fácil ser árbitro de futebol. Em todos os jogos sempre tentámos fazer o melhor que conseguimos. Sempre tentámos acertar em tudo, umas vezes era por intuição. As pessoas não percebem e dizem: “Como é que ele viu se foi mão ou não foi?”. Muitas vezes é pelo comportamento do jogador, se vai logo à procura do árbitro para ver se viu ou não, nós não vimos, mas pela reacção de toda a gente marcamos ou não.
Na melhor das hipóteses fazemos dois jogos por fim-de-semana, na pior fazemos três ou quatro, aquilo ocupava o fim-de-semana todo. Entrei para a SIC e estava a fazer um programa que eram os bastidores da novela Floribella. Além dos nomes típicos que qualquer árbitro recebe, ainda tinha mais atenções por aparecer na televisão. Era o palhaço da televisão, o FDP da televisão. Começava a ter em cima de mim atenções que eram indesejáveis para a equipa de arbitragem, não valia a pena. E foi nessa altura que decidi parar. Mas ainda hoje tenho saudades, ainda hoje tenho esse bichinho.


Apresentador de televisão, começou em 2006 na SIC, apresentou também o “Cá Estamos”, na TV Globo Portugal, e desde 2008 que tem o programa “Estúdio BTV”, no canal do SL Benfica.

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