Marco Aurélio

Jogava no Palermo, fui para o Cosenza e um dia cheguei a casa e tinha uma carta da polícia. Queriam que prestasse informações sobre um caso, não sabia o que era. Fui ao clube, liguei e disseram que não me davam informações por telefone. Tive de ir a Palermo. Era longe, de avião era ruim de fazer. Era mais fácil ir de carro e acabei por ir assim. Demorei umas quatro horas para chegar. Cheguei e apresentei-me a um juiz.
— Entre, Marco. Estava à sua espera. Você conhece tal pessoa?
Disse que não.
— Obrigado, pode ir embora.
— Mas o que é isso? Desculpe, mas que conversa é essa? Faço quatro horas, perdi o treino, você falou o nome de uma pessoa que nunca ouvi e agora diz que me posso ir embora?
— Vou explicar-lhe o que aconteceu. Um traficante de droga ligou para um jogador do Palermo, perguntou-lhe se ia levar algum colega à inauguração de uma discoteca e ele respondeu que o levaria a si e ao Bombardini.
— Senhor juiz, não estive nessa discoteca!
E ele disse:
— Nós sabemos isso, mas como o seu nome foi citado você tinha de vir aqui.
O traficante estava sob escuta, e como ligou ao meu colega, que acredito que não soubesse que o outro mexia com drogas, e falaram nos nossos nomes, quiseram saber se estávamos envolvidos com esse cara. Não sei se também me puseram sob escuta, mas bateram com a cara na porta! Tive de fazer uma viagem enorme, o juiz ainda me perguntou se queria que me pagassem a gasolina e as portagens, mas disse que só queria ir-me embora. Fiquei lá dez minutos, que história louca!
Fui para Itália, para o Vicenza, depois desci e fui para a ilha, para o Palermo. Depois subi para Cosenza, SPAL, Teramo e SPAL de novo. Fiz uma série de amigos no Cosenza. Diziam que a Calabria era perigosa e eu dizia: “Cara, eu vivi no Rio de Janeiro, vou ter medo da Calabria? Deixa de ser bobo, rapaz! Não tem problema, não.”
Nunca fui de discotecas. Não é por nada, mas não gosto. Quando cheguei ao Sporting, em 1994, dei uma entrevista e depois ouvi dois colegas meus, que não me viram a entrar no balneário.
— Que nada, é igual a todos os brasileiros. Está a falar isso de Deus e não sei quê mas quando lhe apresentarmos as Docas isso tudo passa.
Ouvi mas não falei nada. Passado uns tempos, disse a um deles, a quem era mais chegado:
— Vou mostrar-lhe que o meu comportamento, com a minha maneira de ser dentro e fora de campo, que não sou o que você está pensando.
E ele respondeu:
— Nada disso, Marco. Estava a brincar e tal.
O tempo passou e quero que ele hoje saiba que não me apresentou as Docas. Nada contra, Deus nos deu o livre arbítrio, mas não é um tipo de coisa de que eu goste.
E antes do Sporting houve a minha chegada a Portugal, para o União da Madeira. Cheguei depois de ser campeão brasileiro pelo Vasco da Gama. O mais drástico, o que mais me assustou, foi que a sede do União pegou fogo dias antes de eu chegar! Cheguei e levaram-me à sede, era uma casita com soalho de madeira, na Rua da Carreira, no centro do Funchal, e estava tudo preto. Parecia tudo Marco Aurélio, tudo pretinho, e eu só pensava: “Onde é que eu vim parar, meu amigo?” E disse ao empresário que estava comigo para irmos embora, não ia ficar ali. Almoçámos, durante a tarde mostraram-me a ilha e à noite levou-me para conversar com o Jaime Ramos, o mítico presidente do União da Madeira. E ele é que me convenceu. Com a sua habilidade de político, começou a falar-me do União, da Madeira, das possibilidades da Europa e aquilo foi-me convencendo. Acabei por dizer ao meu empresário que íamos assinar. Fui para o hotel, liguei à minha esposa e assinei pelo União. Foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida. Se não tenho o União, não chego ao Sporting. E sem o União talvez não chegasse ao campeonato italiano. Sou muito grato ao União. Joguei ali quatro anos, joguei na II Divisão, tenho dois filhos madeirenses. E joguei no União com o maluco do Hólger Quiñónez, fomos campeões brasileiros no Vasco! Era um futebol completamente diferente.
Saí do Vasco, joguei no União, uma equipa de menor expressão, e quando fui para o Sporting foi como voltar a casa: um clube com estrutura, onde podia jogar com a casa cheia, massa associativa muito presente nos treinos e logo num clube onde fui tratado extremamente bem. Passámos momentos difíceis, de não ganhar títulos, como o de 94/95. Com a equipa que tínhamos, com Figo, Balakov, Juskowiak, Amunike, Naybet, Stan Valckx, Lemajic, Costinha, Nélson… Que equipa! O patinho feio era eu, que vinha do União, o resto era tudo gente que tinha estado no Mundial de 1994, uma equipa realmente forte e infelizmente não fomos capazes de ganhar o título. Mesmo assim acabou o ano e no ano seguinte vi ali a massa associativa presente e amiga. Cobra, se você não joga bem os primeiros 15 minutos você já escuta, obviamente, como todas as outras grandes torcidas, mas não tem igual.


Campeão brasileiro pelo Vasco da Gama, jogou no União da Madeira e no Sporting, pelo qual venceu uma Taça e uma Supertaça. Depois jogou em Itália e voltou para o Brasil, onde é empresário.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

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