Manuel Sérgio

Cumpre-nos a todos a humilde lealdade de nos aceitarmos como somos e pelo pouco que temos. Eu nasci em Lisboa, na freguesia de Nossa Senhora da Ajuda, de família pobre, mas honrada; eram também católicos praticantes os meus pais e com particular afeição pelo Belenenses. Não é por isso de estranhar que, desde criança, seja o futebol o meu espetáculo favorito, nem que, nos textos que vou escrevendo, circule uma saudade enorme pelos jogos no Estádio José Manuel Soares (ou das Salésias) e os primeiros anos do Estádio do Restelo, onde contemplei o talento inteiro e profundamente original dos mais notáveis futebolistas portugueses desses anos. Folheie-se qualquer um dos meus livrinhos e o futebol lá está, com um relevo e uma palpitação muito próprios. E portanto com as personagens e os sucessos, que a minha admiração mais guardou. As “Torres de Belém” (Capela, Vasco, Feliciano e Serafim), o José Pereira, o Di Pace, o Vicente, o Matateu, o Fernando Peres; os “Cinco Violinos” (Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano); o Espírito Santo, o Rogério Lantres de Carvalho, o Germano, o José Augusto, o Eusébio, o Águas, o Torres, o Coluna, o Jaime Graça e o Simões; o Correia Dias, o Barrigana, o António Araújo, o Hernâni, o Carlos Duarte, o Pedroto. Ocorrem-me ainda o Patalino do Elvas e o Ben David do Atlético e o Bentes da Académica. Enfim, “artistas da bola” uns; brônzeos competidores outros – todos morando no embalo das minhas recordações. Relembro também o Ladislao Kubala, do Barcelona, que era considerado, por alguns críticos, na primeira metade da década de 50, o melhor jogador do mundo. De facto, jogador de uma “finesse”, no trato e na condução da bola, que guardo ainda no cofre da memória. Vi-o, num jogo noturno, no Estádio do Restelo. É com névoa e distância que me chega o futebol de há 40 e 50 e 60 e 70 anos atrás, mas com o poder de suscitar imagens, para mim, imperecíveis…

A José Maria Pedroto conheci-o, como jogador de futebol, no Belenenses e, depois, no FC Porto. Inteligente e de uma habilidade que seduzia, rapidamente colheu os loiros da popularidade. Mas foi, como treinador, que o seu talento de líder e de estudioso sempre em busca de mais conhecimento que o Futuro o lembrou e… lembrará! Fez, na companhia de Jorge Nuno Pinto da Costa, a mais profunda revolução, ou melhor: a revolução mais original e significativa, que algum dia o nosso futebol já conheceu, transformando o FC Porto, um clube perdedor, complexado, miticamente focado no Passado, num clube de invulgar força interna e representatividade externa, ombreando em querer e audácia com os melhores clubes do mundo. Em Maio de 1979, realizou-se, em Espinho, um congresso organizado pela Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva, com a colaboração do Dr. Lito de Almeida, médico do Sporting de Espinho. Por “imposição” do Dr. Aníbal Silva e Costa, presidente desta Sociedade Médica, eu fui um dos conferencistas, com um tema que assim titulei: “O racionalismo na Medicina e na Educação Física”. Acabara de ler dois livros de Michel Foucault, Nascimento da Clínica e Microfísica do Poder e cheguei assim à conclusão que, significando embora um pronunciado avanço na ciência médica, a Medicina e a Educação Física, designadamente a partir do século XVIII, sofriam claramente do “erro de Descartes”. E, daí, o treino desportivo em voga ser bem mais preparação física do que desporto. Ainda em 1981, contra a sapiência “ex cathedra” de algumas pessoas que blasonavam do seu muito saber, na vasta problemática do treino desportivo, eu escrevia, no meu livrinho Filosofia das Actividades Corporais: “No entanto, para quem se deitar à construção de uma Filosofia das Actividades Corporais (nas quais o Desporto se integra necessariamente) ainda é o cartesianismo o grande obstáculo que se destaca, arremessando argumentos como pedras” (p. 23).

Partindo do que aprendera em Foucault, pude afirmar, naquele congresso médico, que não existia Educação Física, mas pessoas em movimento intencional e que… o treino desportivo estava errado, pois que, nele, “havia cargas físicas a mais e desporto a menos”. E cheguei mesmo a acrescentar: “E os sábios do treino desportivo confundem, em demasia, a fisiologia com a totalidade humana”. Eu nunca treinara nada nem ninguém e não podiam ser por isso irrefragáveis as minhas ideias, a este respeito, dado que pensava (como penso hoje) que… só se sabe aquilo que se vive! Mas o que via nos treinos, no Estádio do Restelo, liderados por treinadores de forte vigor dialético, tinha um certo ar de antiqualha. Para o meu modesto entender, o sentido, os valores, as finalidades do treino desportivo precisavam de ser repensados. Finda a minha charla, o Sr. José Maria Pedroto aproximou-se de mim, cumprimentou-me, apresentou-me a sua silenciosa companheira, a sua Filha, a Profª. Doutora Isabel Pedroto (então, uma estudante do 2º. Ano de Medicina) e, sem qualquer desvio de linguagem, comentou: “Não é do meu interesse saber se há, ou não há, Educação Física, mas já me importa, e muito, que o Sr. Dr. me explique por que o treino desportivo está errado. Como há-de calcular, este assunto interessa-me”. Mestre Pedroto não me falou, com o mínimo assomo de suficiência pedante, mas intimidou-me a sua pergunta. Arrojadamente, respondi-lhe: “A Medicina, a Educação Física, o Treino Desportivo estão contaminados pelo dualismo antropológico racionalista e por isso tomam a parte pelo todo”. Pedroto atalhou: “Não entendo”. E eu continuei: “Fazem da fisiologia a ciência principal dos seus estudos, quando é principalmente a totalidade humana que está em causa”. Pedroto não se contentou com a exiguidade da minha resposta e rematou: “Precisamos de falar mais sobre este assunto. Quando vem ao Porto?”.

Uma semana depois voltei ao Porto e talvez mais uma dúzia de vezes. Através de José Maria Pedroto, conheci pessoalmente (e fiquei amigo) de Jorge Nuno Pinto da Costa, do Dr. José Lourenço Pinto, atual presidente da Associação de Futebol do Porto, e do treinador e jornalista Fernando Vaz. De José Maria Pedroto o que poderei dizer, sobre o mais? Foi um daqueles treinadores que mais atentos estiveram à evolução do treino desportivo. Distinguiu-me sempre com uma simpatia que muito me honrou. Várias vezes me disse: “Gosto muito de o ouvir falar sobre futebol. Acho-lhe piada. Diz coisas que parecem só Filosofia. Ficamos a pensar nelas. Mas depois reparamos que elas se aplicam também ao futebol”. Dois dias antes de um Portugal – República Federal da Alemanha, que se efetuou no Estádio do Restelo, em 23 de Fevereiro de 1983, se não laboro em erro, telefonou-me: “Quer encontrar-se comigo, no Restelo? Vou aí ver o jogo com a RFA”. Assistimos ao jogo um ao lado do outro. No intervalo, subimos ao corredor onde se situa o camarote presidencial e os demais camarotes. Na encruzilhada de cumprimentos que se ergueu à nossa frente, tantas eram as pessoas que se aproximaram do Mestre Pedroto, passou por nós alguém cuja presença o empolgou: era o Eusébio. Encararam-se com alegria. Abraçaram-se. Discretamente, Pedroto disse ao ouvido do Eusébio: “Se tiveres problemas, já sabes, contas comigo!”. Ao voltarmos para o nosso lugar, na bancada, questionei-o: “Era capaz de levar para o F.C. Porto uma figura emblemática do Benfica?”. Calou assim, de improviso, as minhas dúvidas: “Quem? O Eusébio? Ele é supra-partidário!”. Pedroto sabia que era o SL Benfica o clube do coração do Eusébio mas, nos momentos de incerteza em que as amizades, por vezes, se acobardam ou se negam, é consolador saber que há sempre um Cireneu a levar connosco a cruz para o Calvário!… José Maria Pedroto foi, de facto, um sismo purificador, no futebol português!


Licenciado em Filosofia, a sua tese de doutoramento defende a existência da ciência da motricidade humana. Aos 83 anos é Professor Catedrático Aposentado da Faculdade de Motricidade Humana.

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