Manuel Machado

Num percurso longo, numa carreira com mais de 30 anos ligado ao futebol, desde a formação, passando pelas divisões inferiores até quase 500 jogos de I Liga, tive uma única saída. E foi a única vez, também tem essa particularidade, de a ter feito pela mão de um agente. Todos os outros contratos que fiz foram feitos directamente com a administração dos clubes e os seus presidentes. Neste caso foi um agente que me convidou a ir para a Grécia, para o Aris.
Passei meia época num clube estrangeiro e foi uma experiência única. Encontrei um clube de dimensão média/alta, compatível com o Sporting de Braga ou Vitória de Guimarães, por exemplo, naquilo que é o quadro do nosso futebol, a viver um momento de crise. E era não só no plano desportivo como a Grécia, de uma maneira geral, à semelhança do que se passou em Portugal, vivia uma crise aguda como é do conhecimento público.
E por isso foi uma experiência que trouxe coisas benéficas, um conjunto de particularidades, até pela forma diferente com que os adeptos, à semelhança do que se passa na Turquia, olham para o jogo e a forma como nele participam. Mas, do ponto de vista desportivo, era um clube com problemas muito graves ao ponto de não se poder treinar porque não havia fuel para a caldeira, no dia seguinte estava cortada a electricidade, no dia seguinte o roupeiro fazia greve porque tinha uma porrada de meses em atraso… Enfim, conseguia-se, quando muito, trabalhar 50 por cento dos dias da semana. Ainda assim conseguiu-se um desempenho relativamente interessante na medida em que quando lá chegámos a equipa tinha uma média de um ponto por jogo e conseguimos multiplicar e fazer o dobro, dois pontos por jogo.
Infelizmente, a duas jornadas do fim, num jogo em casa que nos daria a qualificação europeia porque era contra o concorrente directo, que estava um ponto à nossa frente, alguém na bancada atirou uma garrafa de água e acabou por se interromper o jogo: perdemos os três pontos, depois mais três na secretaria, e acabou por se comprometer aí o objectivo desportivo.
A Grécia vivia um período de grande crise e por isso naturalmente a própria vida em termos sociais estava condicionada e as pessoas tinham muitas limitações. Vai daí que ao fim de seis meses, não tendo recebido mês nenhum, e isto é uma outra particularidade, acabámos por vir embora, como é óbvio. Acabei inclusivamente por pagar a minha viagem de regresso porque a agência que trabalhava com o clube nunca mais disponibilizava a mesma. Por tudo isto, foi uma experiência única: a única vez que fiz um contrato através de um agente, num período de crise quer social quer desportiva, com a particularidade de ter pago a minha viagem de retorno.


Estreou-se como treinador na I Divisão em 1992/93, no V. Guimarães, e desde então orientou Moreirense, Nacional, Académica, Sp. Braga e Arouca no principal escalão.

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