Luiz Caracol

Acho que a minha relação com o futebol é uma coisa quase desde o berço ou pelo menos desde que me lembro de existir e, ao que parece, até o meu primeiro brinquedo, e aquele pelo qual fui mais apaixonado, foi uma bola. Passei a minha infância a querer ser jogador de futebol e tudo que mais queria e gostava de fazer era jogar à bola e andar com a bola atrás, fosse verão ou inverno, chovesse ou fizesse sol, ao ponto de isso me ter custado algumas palmadas do meu pai, para não dizer mais do que algumas, pois a rapidez com que eu estragava os ténis ou a roupa por causa da minha inquieta actividade futebolística não era uma coisa assim tão bem aceite para uma família de classe média baixa, como foi sempre a minha.
Até que aos nove anos o meu pai me disse: “Queres ir jogar à bola? Tudo bem! Vou inscrever-te no futebol que tu não te calas com esse assunto…”.
E lá fui eu. Como na altura vivia em São Miguel, nos Açores, o primeiro clube onde joguei foi o União Micaelense, clube do qual sempre gostei muito, mas, no ano a seguir, e com algum burburinho à mistura, fui para o eterno rival, o Santa Clara, pois metade da sua equipa era composta por amigos meus de escola e cada vez me fazia mais confusão jogar com eles durante a semana na escola para depois ter de jogar contra eles ao fim-de-semana.
Depois de um ano no Santa Clara, os meus pais decidiram voltar para Lisboa e lá tive eu que deixar os Açores e aqueles amigos com quem adorava jogar. Cheguei a Lisboa e dois dias depois o meu avô disse-me que sabia que dali a uns dias iriam haver treinos de captação no Sporting. E assim foi. Uns dias depois lá estava eu em Alvalade, acabado de chegar à cidade grande vindo de uma ilha, onde tinha passado a maior parte da minha pacata infância.
Os treinos correram bem e ainda fui passando pela triagem uns 10 treinos em que, no final de cada um, o treinador vinha ao balneário e dizia a uns para voltarem no dia a seguir e a outros que seria o seu último treino. Até que para aí ao décimo treino calhou-me a mim também e nunca mais me esqueço das palavras do treinador, que me disse: “miúdo, tu és bom de bola e se tivesses mais altura ficavas na equipa. Mas não tens e é por isso que hoje é o teu último treino connosco…”.
Acho que esse dia foi um dos mais tristes da minha vida, mas lá tive de seguir em frente e nos anos seguintes joguei no Odivelas, no CAC da Pontinha, no Elvas, no Loures, até que aos 17 anos comecei a treinar no Belenenses, clube pelo qual tinha e tenho ainda uma enorme simpatia. Mas, dois dias antes de assinar por eles, a vida voltou a trocar-me as voltas com o acidente de mota que tive e que me fez estar sem jogar demasiado tempo, o que numa altura como aquela acabou por ser crucial para que tivesse acabado com a minha possível carreira no futebol.
Como nessa mesma altura a música já estava cada vez mais a fazer parte de mim e da minha vida, acho que esse acidente e essa impossibilidade de jogar tanto tempo acabaram por me fazer aproximar dela, ao ponto de um ano mais tarde ter decidido que era isso que queria fazer para o resto da minha vida e que o futebol passaria a ser só para jogar com os amigos de vez em quando. É um pouco por isso que às vezes na brincadeira digo que só sou músico por causa de um acidente de mota, o que acaba por não ser de todo descabido.
Ainda hoje jogo com alguns amigos às segundas-feiras, numa equipa de malta ligada às artes onde são frequentes o Rogério Charraz, o Marco Rodrigues, o Miguel Gizzas, o Júlio Resende, o José Fialho Gouveia, o António Zambujo, entre outros mais, e é por isso que esse dia é o meu preferido da semana.


Três anos depois da edição de “Devagar”, o cantor e compositor acaba de lançar “Metade e Meia”, segundo disco na sua carreira a solo mas nunca solitária.

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