Luís Pedro Nunes

Independentemente do facto de se gostar ou não de futebol, há uma coisa que é um privilégio que só se tem quando se viaja para o fim do Mundo, o privilégio de ser português e viver nesta altura, no apogeu da carreira futebolística de Ronaldo. Ser português e ter como meu embaixador Ronaldo ajudou-me de uma forma extraordinária, em tudo. Muita gente não sabe onde é Portugal, o que é Portugal, ou o que é um português. Mas assim que eu dizia Ronaldo e apontava para mim, imediatamente as características dele eram delegadas em mim. Apropriava-me do Ronaldo e as pessoas abriam um sorriso, a cara transformava-se e a minha vida ficava imediatamente facilitada. À conta do Ronaldo, à custa do Ronaldo. O Ronaldo deu-me muito, sem que eu fizesse nada por ele. Eu só tenho que ser fã do Ronaldo e agradecer ao Ronaldo.
Mas isto acontece nos sítios mais absurdos: no Curdistão, num roadblock um tipo com uma metralhadora perguntava-me o que é um português. “Português? Portugal? What is Portugal?” e eu lá saquei da velha cartada: “Cristiano Ronaldo country, me.” E pronto, free pass. E se o Cristiano Ronaldo fosse um filho da mãe, um tipo horrível, um gajo detestado pelo Mundo, não tinha isto, mas como ele é um tipo com boa índole, boas características e só os portugueses é que às vezes acham que ele é “nhanhanha”, essas manias de dizer mal do Ronaldo, mas o Ronaldo é um tipo bom, com boas características, um grande profissional, com tudo bom, que a gente devia respeitar, mesmo quem não gosta assim particularmente de bola, como é o meu caso.
Isso eu tenho de lhe agradecer, se alguma vez o visse tinha de lhe dizer obrigado, porque toca e inspira milhões de pessoas. Chega ali a um ponto em que eles estão de cara fechada, “o que é que queres?” e aponto para mim: “Ronaldo. Portugal.” Já tinha tido isso com o Figo, ainda por cima diziam que era parecido de tromba, mas na altura não tinha esta coisa das redes sociais. Nos sítios mais inóspitos lá está uma camisola do Messi e outra do Ronaldo. Os miúdos pequeninos, o único bem que eles têm é aquela camisola. Por acaso até acho que o Barcelona tem mais facilidade em meter camisolas no Terceiro Mundo, não sei muito bem como. Em Bolama, Guiné, numa ilha, em plena chuva vês as crianças a jogar à bola e a gritar pelo Messi e pelo Ronaldo. Aquilo que é hoje a dimensão global do planeta vê-se muito por isso. Toda a gente sabe quem é o Ronaldo e quem é o Messi, os miúdos pequeninos em qualquer ponto do Mundo sabem quem eles são.
Outra história que tenho é no Bangladesh, que é um país improvável, um erro, não sei bem como aquilo existe como país. Chegámos lá em pleno auge do Campeonato do Mundo de 2014. O Bangladesh, um país muito duro, muito difícil de se conseguir gostar, estava engalanado com bandeiras. Até nas aldeias mais recônditas as pessoas tinham feito bandeiras improvisadas, então a bandeira de Portugal estava por todo o país. A bandeira do Brasil, da Argentina, da Alemanha, e a de Portugal, que encontravas nos sítios mais incríveis, porque eram os países que as pessoas gostavam no Campeonato do Mundo. Nesse aspecto, o futebol tem uma força, uma capacidade de mobilizar as pessoas…


Director do Inimigo Público, é uma das caras dos programas “Eixo do Mal” e “Irritações”. As suas crónicas no Expresso foram compiladas no livro “Suficientemente bom, Desprezivelmente mau”.

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2 comentários sobre “Luís Pedro Nunes

  1. Sim, o Ronaldo é conhecido no mundo todo, mas por partilhar a nacionalidade com ele tenho que o venerar? O tipo nunca jogou no meu clube, marcou-nos um golo e por sinal disse ser o mais bonito da carreira.. É um bom jogador sem qualquer duvida mas prefiro a arte do messi e a identidade que ele tem ao e com o Barcelona.

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